2013-05-10

Entre o Martelo e o Islão, o dia que mudou o mundo

Por volta o ano 622, começa na península Arábica com o profeta Maomé  um fervor relígioso (e político, porque não) que iria mudar o mundo . Em pouco mais de 10 anos a península está sob o domínio de um único Calipha, e começa a pressão sobre o já decadente Império Bizantino (o que sobrou do império Romano) 




O resto da Europa é uma manta de retalhos de tribos germânicas, que tinham completamente atropelado o império Romano Ocidental depois de 375. Com a queda de roma, cai também a Europa nas chamadas "Dark Ages". Povos "bárbaros", fronteiras pouco definidas, sem língua comum, retrocessos civilizacionais  militares e científicos.



Não é de admirar que assim que o Islão bate à porta de península ibérica, as tribos Visigodas desmoronam e  recuam para o norte montanhoso da península e para França, além dos Pirenéus  O califado Umayyad absorveu e adoptou as tácticas de todos os povos, tribos e até Impérios que enfrentou (absorveu inclusive o que restava dos Persas), e na altura que chegou à Península era uma horda com a melhor tecnologia da época. Sabres recurvados, fáceis e rápidos de manejar, infantaria irregular que era usada para fustigar linhas de mantimentos, mas acima de tudo, a adopção do estribo na sua cavalaria permitia que o cavaleiro tivesse maior equilíbrio, controlo, mas acima de tudo, permitia a utilização de mais armadura e armas mais pesadas a cavalo.



O resultado? Um aglomerado de camponeses visigóticos, que eram obrigados pelo seu senhor local a lutar no tempo entre as colheitas, e assim que a cavalaria Umayyad entrava em contacto com a linha inimiga, era uma debandada descontrolada. A desvantagem desta cavalaria era a dificuldade de lutar em terreno montanhoso. Daí a continuidade do enclave cristão nas astúrias (que recebia mantimentos por mar), e a "segurança" que as tribos Francas sentiam.

Mas um senhor dos Francos perdia o sono todas as noites com a situação na Ibéria, Carolus Martlelus (Karl Martel, Carlos Martel) acreditava que era um questão de tempos até que a barreira dos Pirenéus fosse ultrapassada pela torrente islâmica. Outros lideres Francos ignoravam a questão, ainda por cima quando a primeira onda Umayyad invadiu o Sul de França, Odo, o Grande teve uma vitória relativamente fácil ao emboscar o exército inimigo.



Entretanto, Martelus fazia o impensável, até ao ponto de o acusarem de herege. Como já tinha referido, desde a queda do Império que não existiam exércitos profissionais na Europa. Quando havia guerra eram levantadas as milícias, milícias estas compostas de gente simples cuja maior preocupação era voltar a casa a tempo da colheita. Martelus, durante 10 anos, retirou terra e dinheiro à igreja (até o Vaticano esteve há beira de o excomungar), pegou no melhor que as tribos Francas tinham, e fez-lhes uma proposta:

Lutem por mim, todo o ano, e eu não só vos pago, como alimento as vossas famílias.

E durante estes 10 anos treinou, alimentou, e pagou um exército para combater um inimigo invisível.
E foi só em 732, na grande invasão muçulmana que todos os Francos se viraram para Carolus. O próprio Odo, que tinha derrotado a primeira expedição, jurou vassalagem a Carolus caso ele o ajudasse.

Já a invasão Umayyad está a chegar a Tours (bem no norte de França!) que Carolus aparece no campo de batalha.


Minto. Na verdade, são os muçulmanos que aparecem no campo de batalha, pois os Francos fizeram questão de chegar mais cedo e escolher o terreno. O exército de Carolus era em tudo diferente do que havia no mundo naquela época. Treinado durante 10 anos, exclusivamente de infantaria pesada (e quando digo pesada devia dizer mesmo pesada, cada homem tinha cerca de 35kg da melhor armadura que o dinheiro comprava na altura, tudo pago por Martelus) e em formação cerrada, quase se assemelhando à falange Grega.



Para agravar, escolheram uma posição numa colina, por detrás de um pequeno bosque. A horda muçulmana tinha um dilema. Sabia que ali estava um inimigo, inimigo esse que impedia a pilhagem de Tours. Mas não fazia ideia de quantos são, nem como estavam organizados. Tudo o que os muçulmanos tinham enfrentado em 100 anos de guerra até aquela data no ocidente eram bárbaros desorganizados, o que podia correr mal?

Abd-al-Rahmân liderava a hoste Umayyad, e podia ter simplesmente ignorado a colina, ido à volta e em direcção a Tours. Mas mostrar fraqueza frente às suas tropas? Ainda por cima, contra bárbaros?

As escaramuças duraram sete dias, e durante esses 7 dias não conseguiram saber nem a disposição das tropas francas nem o seu número, pois Martelus usou as milícias para "salpicar" o terreno, dando a impressão que tinha, como esperado, uma tropa irregular e pouco disciplinada.

A carga muçulmana deve ter sido tremenda. 20.000 homens a cavalo deve criar um barulho e um tremor no próprio solo difícil de imaginar, mas quando passam a zona florestada e encontram uma linha sólida de ferro e láminas... bom, digamos que nesse dia, Carolus ganhou o cognome de Martellus (martelo). 

Foi muito mais do que a primeira grande derrota dos Califas. Era a última e única linha de defesa entre os Pirinéus e o Volga. Não havia literalmente nada para além dos francos de Carolus até se chegar às estepes russas e às hordas mongois. Demoraram 700 anos a reconquistar a Península Ibérica, que pensar caso e Europa tivesse sido inundada depois de 732?

Só em nota final, Martellus foi o primeiro da Dinastia dos Carolíngios  chamar-lhes os fundadores da Idade Média não é exagero. O seu neto foi Carlos Magno, rei dos Francos, dos Lombardos e Imperador do Sacro Império Romano.

2 comments:

Carlos Ferreira said...

Por outras palavras, a ele devemos a Europa que temos.

Bom post!

Pedro Francisco said...

Não fazia ideia...