2011-08-03

Atlantis, parte 2

Depois de no primeiro post ter mostrado o que acho que são bons motivos para crer que temos um elo perdido entre o homem pré-histórico e as grandes civilizações, quero nesta segunda parte explorar o porquê da "não existência" de vestígios arqueológicos, que no fundo, leva à ridicularização do tema.

O desaparecimento de Atlântida
Segundo Platão, em 9300 A.C, os Atlantes para além das "colunas de Hércules" entraram em guerra com os que viviam dentro das "colunas de Hércules". Deu-se uma guerra civil, e, "numa data posterior e apenas num dia e uma noite, ocorreram enormes terramotos e inundações, todos os guerreiros Atlantes foram engolidos pela terra, e a ilha engolida pelo mar. No seu lugar, o oceano ficou intransponível, estando bloqueado pelo pântano de lama criado enquanto a ilha era engolida."




Relato interessante mas aparentemente fantasioso. Qualquer geólogo tem como bíblia o facto de que mudanças geológicas são lentas e ao longo de muito tempo. Ilhas e continentes não aparecem ou desaparecem de um dia para o outro. Mais ainda, se houve realmente tal calamidade no meio do Atlântico, porque é apenas Platão que a relata, e não povos da Europa e África Ocidental, ou até das Américas? Certamente tal cataclismo não lhes passava ao lado...

História escrita
É algo tenebroso para mim, confesso. Por vezes penso na história recente do ser humano. Se amanhã a raça humana fosse dizimada da terra e apenas sobrevivesse uma pequena porção, escondida nalguma caverna, o que alguém diria daqui a 10000 anos quando encontrassem uma ruina enterrada aqui ou ali? Certamente já não escrevemos história nas paredes ou em pedras como os nossos antepassados. O papel usado nos nossos livros é horrível quando se fala de resistência aos elementos. A nosso existência hoje em dia é mais digital do que gravada no nosso mundo. Estaremos condenados ao esquecimento?

Porque é isso que se passou no passado. Os povos antes do aparecimento da escrita são um mistério para nós. Que cultura teriam? O que comiam? Que língua falavam? Quais os seus feitos? Simplesmente não sabemos, e o mesmo se estende à suposta civilização Atlante, esquecida.





Ou talvez não...
Gostava de fazer um pequenos desvio, e falar de mitologia, lenda e folclore.

- O Conto de Gilgamesh, primeira versão em texto datada de 2200 A.C, é um relato sumero, em que, entre feitos heróicos de Gilgamesh, fala da Grande Inundação que os deuses enviaram para o mundo, e do escolhido que construiu um grande barco onde se salvaram uns poucos homens e animais.

- A história de Noé, primeira versão escrita datada de 1000 A.C, é um relato cristão (e islâmico, é apresentado no corão também), e que fala em como Noé, não é, construiu um barco onde salvou a família e animais da Grande Inundação.

- O dilúvio de Masai, data incerta, é o relato Africano de como Deus, irado com o homem, inundou o mundo, apenas se salvando Tambainot e sua família, que tinha previamente construido um barco de madeira.

- O mito dos 4 mundos, data incerta, é o relato índio Norte Americano em como o mundo foi destruído numa grande inundação. Apenas se salvaram uns poucos índios, pois a Deusa Aranha lhes tinha construído um barco.

-Lenda de Trentren Vilu e Caicai Vilu, é o relato sul americano em como o mundo é inundado e a humanidade é salva por Trentren Vilu, quando ele eleva as montanhas para alguns humanos se refugiarem.


Admira alguém o facto de, desde a Europa até África, passando pela América do Norte e do Sul, haja mitos/histórias sobre um grande dilúvio? Será que o grande medo da humanidade é morrer afogado? Ou será que, na ausência de escrita, e história é passada de boca em boca, e tanta vez é recontada que assume contornos religiosos e folclóricos, chegando até nós depois como mito? Pode ter havido realmente, nos primórdios da civilização, um evento que marcou a raça humana?

Díluvio
Não preciso de procurar muito. Há 2 eventos específicos e relativamente recentes que entram no profile:
  • Fim da idade do gelo - 11.000 A.C. a 9.000/8000 A.C. - foi um verdadeiro dilema para a raça humana, habituada ás baixas temperaturas e à facilidade de preservar carne e peixe (bastava enterrar na neve). Levou também à subida das águas, lenta mas implacável.
  • 8.2k - 6200 A.C - O chamado evento 8.2k, foi quando 2 super-lagos de água doce glacial "vazaram" para o oceano atlântico, parando a sua corrente quente, quase instantaneamente baixando a temperatura do planeta em 5 Cº, e aumentando o nível do mar em até 4 metros.
Não é difícil, na face de qualquer destes 2 eventos, perceber o porquê dos povos pensarem que estavam a ser punidos pelos Deuses.

O problema Atlante
Mesmo que tenha havido um diluvio à escala planetária (ou atlântica), tal não prova a existência da civilização Atlante. Faltam dados arqueológicos, contributos concretos e não apenas folclóricos.

Deixem-me mostrar-vos,

Gobekli Tepe:


Não ouviram falar de Gobleki Tepe nas notícias, nem o vão encontrar em guias turísticos. Acima de tudo, porque Gobleki Tepe é um verdadeiro incómodo.

Descoberta em 1995, Gobleki Tepe é um conjunto de 20 estruturas circulares, 4 das quais já escavadas e documentadas. Situa-se na turquia e tinha sido totalmente coberta de areia numa data desconhecida. Gobleki Tepe foi construida à 11 mil anos atrás.

11 mil anos, ou, mais precisamente, 8960 A.C (lembram-se da data do fim da idade do gelo?), com uma margem de erro (por datação radioactiva) de 60 anos apenas. Para situar, antes de Gobleki o homem fazia pinturas nas cavernas e bonecas grávidas de barro, vestia-se com peles não curadas de animais e usava pedaços de madeira como armas.




Gobleki encontra-se isolada. Não se encontram nas redondezas ferramentas ou vestígios humanos que possam sugerir sedentarismo. Alguns blocos pesam até 7 toneladas, e a arte representada é sem precedentes para o homem pré histórico.

Relembro que, até Gobleki, o homem pintava e construía onde vivia. Até Gobleki o homem fazia detalhes para dentro da pedra (vejam o javali no fundo da imagem anterior, é um detalhe para fora da pedra, ou seja, o escultor escava a pedra por fora do contorno do animal).

E espantosamente, os construtores de Gobleki foram ficando piores quanto mais tempo passava. As colunas e os detalhes na pedra são melhores nos primeiros templos, e conforme o tempo passa, os pilares vão sendo mais pequenos, mais simples, e montados com menos cuidado, até que, perto de 8200 A.C. desistem do local.

Estrada das bimini
Levantou muita polémica na altura do seu descobrimento. Esta "estrada" colocou cientistas em 2 extremos. Os que sugerem que as formações são naturais, e outros que as colocam como "feitas pelo homem". Antes de mais, o que é a estrada das bimini?


Trata-se de 2 locais para dizer a verdade, em que pedras de vários tamanhos, mas todas quadrangulares, estão supostamente organizadas, formando "estradas" ao longo de cerca de 2km, tendo a forma mostrada na imagem de cima. Ok tudo bem, feitas pelos romanos ou algo assim não?

Há 2 pequenos problemas. 1º está no fundo do oceano. 2º O oceano é o atlântico, e a estrada está ao pé das bahamas, que eram habitadas por índios sem capacidade para as construir.


A datação da estrada não ajudou a chegar a um consenso. 13.000 A.C a 1.500 A.C. Ficou então o campo científico dividido. Uns a suportar que a estrada é um estrutura feita pelo homem, outros que é 100% natural.

Focos de civilização
É sabido que a humanidade não avança toda ao mesmo ritmo. No passado, condições locais favoráveis como bom clima, colheitas regulares, explosão populacional, prosperidade levaram à riqueza de povos selectos, que por sua vez puderam aplicar essa riqueza para formar exército, desenvolver ciência e cultura. Exemplos? Egípcios, Gregos, Romanos, e por fim, a Europa que por tanto tempo foi o motor da humanidade. Todos este prosperaram enquanto os vizinhos continuavam "bárbaros", e então, levaram a civilização até eles.

Não penso que o suposto elo Atlante seja um elo de super humanos, que tinha automóveis e televisão, poderes mentais e que comia fruto dos deuses, não. Penso sim seriamente que Gobleki tepe não pode ter sido construído por nenhum povo indígena turco. A construção e os engraves na pedra são demasiado detalhados e não há, em todo o médio oriente, ásia menor e maior, e europa, nenhuma construção da mesma época com 1/3 da complexidade de Gobleki. Para não falar do facto de, conforme a idade do gelo acaba, o conhecimento para continuar a construção do complexo de templos vai desaparecendo, como se o construtor original tivesse desaparecido e os locais tentaram a sua sorte.


Supomos então que Gobleki foi construido por um povo de fora. Que tipo de povo seria?
Os motivos engravados são de animais, as estruturas de pedra são apenas "T"s de várias toneladas, e a estrutura dos templo é um simples círculo sem tecto. Em muito, semelhante ao feito em stonehenge no detalhe e estrutura, se esquecermos que foi feito 7000 anos antes do megalito Inglês. Vejo, por isto, esta civilização como avançada para o seu tempo, a igualar talvez em feitos o homem europeu da idade do bronze. Sem acesso (ou acesso limitado) a mineração (ferramentas de pedra), capazes de construir os seus próprios templos religiosos e habitação, sem acesso a escrita (iconografia gráfica, os símbolos são representações e não letras ou palavras), mas (e aqui faço quase um sacrilégio histórico) atrevo-me a dizer que tinha de ter acesso à agricultura.


Porque sem escrita e sem metais, mas tinha de ter agricultura? A agricultura começa "oficialmente" em 7000 A.C, o elo atlante será 2000-3000 anos mais antigo, porque motivo não eram recolectores?

Muito simples. Recolectores não constroem centros habitacionais. Sem centros habitacionais não há necessidade de estradas. Sem estes 2, não há sedentarismo. Sem sedentarismo não há simplesmente tempo para desenvolver religião, ciência e cultura. Sem estes 3, não há nada que justifique um avanço civilizacional.

Conclusão
Sei que toda a linha de pensamento que levou a esta conclusão é muito ténue. Baseia-se nas semelhanças de mitos, suposições, elos perdidos nas américas, construções pré-históricas sem consenso científico, mas pelo menos creio que não cai no ridículo. Creio realmente que Platão teve acesso a documentos transcritos egípcios, e que estes (perdidos no incêndio de Alexandria, ou até antes em quaisquer das pilhagens do Egipto) eram os últimos que, na forma já de lenda ou mito, recordavam um povo que conseguia unir as américas à europa e áfrica.

Alto lá, então, não digo onde é que é a Atlântida, onde está "enterrada"?
Negativo, não faço ideia. Os picos da Atlântida podem ser hoje os açores, pode estar por debaixo do mar dos sargaços (o tal mar intransponível, certo?), ser a gronelândia, pólo norte, cuba, caraíbas, cabo verde... Mas tal como a partir de um modelo se pode provar a existência de algo, sem se conseguir ver esse mesmo algo, creio que é uma questão de tempo até, mesmo não lhe chamando Atlantes ou Atlântida (que chama logo o ridículo), se encontrar algum vestígio até mais antigo que Gobleki, talvez com sorte com umas ferramentas ou até esqueletos com uns adornos de metal, e, em 30 segundos no telejornal, anunciarem que a história humana vai ter de ser re-escrita.

E que Platão afinal, tinha razão.









7 comments:

ArabianShark said...

Primeiro tenho que dizer que, caso um argumento não vá firectamente contra uma opinião que eu já tenha formado, tenho sérias dificuldades em encontrar falhas em qualquer argumento com um pingo que seja de racionalidade.

Posto isto, tudo isto me parece muito bem; não sei de nada que contradiga nada do que o General Peres apresenta como facto nem discordo das suas inferências.

Para além disso, muito interessante! *thumbs up*

Peres said...

Obrigado. Andava com isto atravessado desde que vi uma "notícia" que falava em transístores e Atlântida na mesma frase, e há muito tempo me perguntava o porquê de tantos mitos/contos sobre afogamentos globais.

Os trabalhos em Gobleki Tepe andam a passo de caracol, não há fundos nem vontade de saber mais, o mesmo se passa com os descobrimentos Portugueses. Chegámos a um ponto em que o status quo actual é suficiente, e a verdade implica trabalho a mais.

Sintra said...

A verdade é que nem sabemos muito bem o que se passava há 2000 ou 1000 anos atrás. Indo ainda mais no passado, menos se saberá.

Peres said...

Yep, mas ninguém nos impede de tentar right?

Sintra said...

Não, mas dificilmente passará dum tentar.

ArabianShark said...

Às tantas, o melhor mesmo era esperar uns 10000 anos até já ninguém se lembrar de nada do que acontece agora e contar as coisas de memória.

Pedro F. said...

Venho por este meio deixar um LIKE! ao artigo ;)