2010-06-15

"Eu" existo

Imaginem um mundo em desenvolvimento, semelhante ao nosso. Apresenta todos os sinais para possuir vida e isso eventualmente acontece. Os seres são também semelhantes e regem-se pelas mesmas regras; reproduzem-se, combatem, alimentam-se e … enfim, cagam. Evoluem também mais ou menos como vemos no nosso planeta.

Após largos anos, algumas espécies desapareceram, outras evoluíram significativamente e outras tornaram-se dominantes. Imaginemos então que oferecemos um cérebro super desenvolvido a uma destas espécies. Melhor seria que esta espécie desenvolvesse esse cérebro mais evoluído...

Esta espécie iria seguir a vida do mesmo modo, mas ia descobrir várias coisas novas. A sua maior inteligência iria permitir-lhe cimentar a sua posição como espécie dominante. No entanto, iria começar a aperceber-se de certas coisas um pouco estranhas, como por exemplo, a percepção do eu. A olhar para outros membros da sua espécie iria reparar que eventualmente todos morrem. O morrer em si é algo natural e como evento em si, não seria nada de estranho, pois na alimentação (caça) e no combate já há vários anos que esta espécie é confrontada com a morte. O novo problema é o cessar do existir do eu. Ao tornarem-se autoconscientes, levantam-se uma série de questões, e o da morte levanta-se acima dos outros.

Porquê? Porque a mente autoconsciente não suporta o conceito de cessar de existir. E então cria a religião, respeito e culto à morte, etc, de modo a poder se enganar e estender a existência do eu.


A diferença é se em vez de o cérebro se desenvolver sozinho, tenha sido antes oferecido por uma entidade superior, faz sentido que possa haver algo para além da morte.


Mas a verdade é que no momento da morte, ou nos momentos próximos dela, a única coisa que o cérebro sabe é “bom meu caro, tás feito, dá aí o teu adeus e até nunca mais” juntamente com o borrar-se todo e outras coisas menos bonitas. É o tal instinto animal. O animal tenta lutar até ao fim, agarrando-se firmemente à vida, mas duma forma instintiva. O ser autoconsciente também se agarra à vida, mas encara a morte duma forma completamente diferente; o “eu” pensa “vou deixar de existir”, e olha para as suas mãos, os seus dedos – o escritor Jack London explica melhor:

“he discovered an appreciation of his own body which he had never felt before. (…) It fascinated him, and he grew suddenly fond of this subtle flesh of his that worked so beautifully and smoothly and delicately. Then he would cast a glance of fear at the wolf-circle drawn expectantly about him, and like a blow the realization would strike him that this wonderful body of his, this living flesh, was no more than so much meat, a quest of ravenous animals, to be torn and slashed by their hungry fangs, to be sustenance to them as the moose and the rabbit had often been sustenance to him.”


Nessa estória (White Fang, para quem estiver interessado), o homem acaba por se safar. Mas podia muito bem ter morrido ali, e provavelmente antes de morrer, ao aperceber-se que tava feito ao bife, iria rezar ou talvez chorar. Outros chamam pela mãe.

Segundo a religião, não há que ter medo da morte, pois há sempre qualquer coisa a seguir. Mas todo o homem (já falo do homem porque é ele a tal espécie de que falava de início, e o tal mundo não passa do nosso planeta) tem esse medo. Quando confrontados com aquela situação final, todos sabem instintivamente que é o fim. Acabou-se, não há mais nada.

A realização do homem cercado por lobos é incompleta. Há a percepção de que o seu corpo físico irá desaparecer mas não é mencionado o consciente. Talvez por ser um homem mais simples. Mas a mente está ligada ao corpo; sem corpo não há mente. E então essa realização implica também o desaparecimento do consciente.


A religião ainda é seguida por muita gente, gente essa que sabe, conscientemente ou inconscientemente, que não há nada para além da morte. E no entanto, creio genuinamente que muitos deles de facto acreditam na existência de Deus. Tão certo como o sol se pôr todos os dias!

Para além de me surpreender, também me causa uma admiração respeitosa, como aqueles lendários gregos e romanos que marchavam firmemente para a morte sem medo algum.


A meu ver, a única coisa a segurar a religião é o mistério da existência do universo. Na física existe o conceito acção-reacção; o big bang foi uma reacção (uma acção é sempre uma reacção produto de outra acção). Que acção o desencadeou? As coisas não acontecem ao calhas, por muito caóticas que sejam. Será que o conceito de início está totalmente errado e não exista? Ou será que foi o tal ser omnipotente que começou com tudo isto?


TL;DR: não sei se Deus existe. Gostaria que existisse, para bem de todos, mas bem cá no fundo, desconfio que não.

26 comments:

Pedro Francisco said...

When you do things right, people won't be sure if you did anything at all

O episódio completo chama-se Godfellas. O Bender faz o papel de Deus intervindo duas vezes: primeiro demasiado e a segunda nunca o fazendo, destruindo as duas civilizações de que era deus. Finalmente encontra Deus que diz a frase acima.

ArabianShark said...

Que galo, fiz-te debump por 12 minutos. Peço desculpa.

Agora, prestando atenção ao conteúdo do teu post em vez de à hora de publicação, estou em crer que os persas é que iam para a frente de batalha sem medo de morrer porque acreditavam que, morrendo em combate, iam ter com uma divindade deles em determinado lugar da religiãp deles, ao passo que tanto gregos como romanos estavam onde estavam borrados de medo porque o que tem que ser tem muita força. Ou então estou enganado.

Desconfias que Deus não exista? Concordo. Desconfio eu é que há de vir aí o Clay discordar, mas ainda bem, que, se concordássemos sempre todos uns com os outros, isto era uma chatice indizível.

Quanto a todas as acções serem reacções já não concordo tanto. A meu ver, se assim fosse, todas as nossas acções seriam reacções indirectas da acção original cuja reacção directa foi o Big Bang (conforme tu referiste), o que não só "apaga" a noção de livre arbítrio (e eu gosto do livre arbítrio) como também nos obriga às noções de previsibilidade determinística universal e destino.

Disso, o Neo discorda...

Claymore said...

Não és obrigado a nada, acredita no que quiseres... Até podes acreditar na fada dos dentes se quiseres...


Outra coisa, que raio andaram a fazer ao blog para que, a cada vez que eu o abro, abre-se também automaticamente uma tab com umas tretas quaisquer ???

Pedro Francisco said...

Fixed.

E karma? Existe?

ArabianShark said...

A questãom digo eu, é menos se o Karma existe e mais se o Karma funciona.

Sintra said...

"A meu ver, se assim fosse, todas as nossas acções seriam reacções indirectas da acção original cuja reacção directa foi o Big Bang (conforme tu referiste), o que não só "apaga" a noção de livre arbítrio (e eu gosto do livre arbítrio) como também nos obriga às noções de previsibilidade determinística universal e destino."

Mais ou menos. Captaste até à parte de noção de livre arbítio. Uma coisa não exclui a outra.
Ex.: dão-te uma bofetada (acção); tu irás reagir, mas podes escolher como.

Clay, não se trata de uma obrigação. Simplesmente acho fascinante que este tema não seja explorado a um nível mais casual. Queria ver as vossas posições no assunto, só isso.

Halloween said...

Boa posta.

No meio deste assunto todo, o que me assusta mais é a facilidade com que as pessoas deitam as suas vidas fora à espera do pote de ouro no final do arco-íris. Estão no seu direito, sem dúvida, apenas há que respeitar; o pior ainda é quando devido às suas crenças pessoais estragam a vida de outros...

Pessoalmente, como sabem, sou crente no FSM :P. Recuso-me a acreditar que o ovo esteja no cu da galinha, pelo que me limito a viver a minha vida o melhor que puder de acordo com as minha própria forma de estar. Continuo a achar que as pessoas não precisam de um aviso do género "se te portas mal, levas" (elevado ao infinito) para se comportarem cordialmente.

Sobre o Big Bang, é difícil dizer... O teu último parágrafo foi bastante bom, aliás, é dos poucos sítios onde os crentes podem pegar. Claro que depois podes simplesmente dizer algo como "é pá, se uma determinada organização religiosa não tivessem queimado vivos uns certos cientistas na Idade Média talvez um gajo já soubesse", mas não vamos entrar por aí.

Acho (ou pelo menos gostava de acreditar) que podes alterar o teu futuro, dado que o saibas, do mesmo modo que podes alterar as tuas acções no presente dado que tenhas consciência do que estás a fazer.
Devemos lutar todos os dias por um mundo melhor *agora*, não por um melhor depois da morte.

"I teach you the overman. Man is something that shall be overcome. What have you done to overcome him? ... All beings so far have created something beyond themselves; and do you want to be the ebb of this great flood, and even go back to the beasts rather than overcome man? What is ape to man? A laughing stock or painful embarrassment. And man shall be that to overman: a laughingstock or painful embarrassment. You have made your way from worm to man, and much in you is still worm. Once you were apes, and even now, too, man is more ape than any ape.... The overman is the meaning of the earth. Let your will say: the overman shall be the meaning of the earth.... Man is a rope, tied between beast and overman—a rope over an abyss ... what is great in man is that he is a bridge and not an end." - Friedrich Nietzsche

Pedro Francisco said...

Eu ainda não percebi bem qual o tópico central do post.

De qualquer maneira, seguindo aqui a linha da raciocício:

Para o Arabian: acho que o Karma só funciona se não exigires que funcione :p

Para o Árabe:
«Continuo a achar que as pessoas não precisam de um aviso do género "se te portas mal, levas" (elevado ao infinito) para se comportarem cordialmente.»
Espero que tenhas razão.

Sintra said...

"Eu ainda não percebi bem qual o tópico central do post."

Normal, não foi escrito com um objectivo definido em mente. É um semi-rant, uma tentativa de vos acordar e por a pensar.

Sintra said...

Até pq se Deus realmente n existir, a vida é uma tragédia sem sentido.

Pedro Francisco said...

Podemos sempre ser a criação de uma espécie superior que nos resolveu criar para perceber o objectivo da vida.

E podemos no futuro criar uma outra espécie para nos fornecer a nós essa resposta.

Não há um objectivo claro para a vida.

Uns acham que é uma espécie de selecção natural a nível individual; outros argumentam que o é a nível comunitário; uns argumentam que é cumprir a lei de Deus; outros que é curtir o mais possível e cagar para o resto.

Duvido que algum deles esteja totalmente certo mas a questão é que o facto de não haver um objectivo palpável não quer dizer que não haja.

Com a existência de Deus esse objectivo torna-se mais concreto, podes projectar nele o que quiseres.

A inexistência de Deus deixa-te à mercê do mundo e das suas realidades, que podem ser realidades impostas ou não, fruto do teu estado de espírito ou de uma conjunção de factores exterior que tu não sabes se é irreversível ou passível de mudança.

Halloween said...

Goucha:

1) "Espero que tenhas razão." - repara que não é pela ameaça do castigo eterno que as maldades deixam de ser feitas....

2) "A inexistência de Deus deixa-te à mercê do mundo e das suas realidades, que podem ser realidades impostas ou não, fruto do teu estado de espírito ou de uma conjunção de factores exterior que tu não sabes se é irreversível ou passível de mudança."

Como se não estivesses à mercê do mundo caso ele existisse :P É por estas e por outras que a espécie humana tem que se unir e resolver os seus problemas civilizadamente.

Sintra said...

O que é simplesmente impossível.
Não se trata de ser pessimista, mas sim realista. No deixar andar só se degenera.

Halloween said...

E quem é q falou em deixar andar?

Sintra said...

Fui eu. lol?

Pedro Francisco said...

Hal:

«1) "Espero que tenhas razão." - repara que não é pela ameaça do castigo eterno que as maldades deixam de ser feitas....
»
Não, mas se tiverem crença na justiça suprema aliada à justiça do Homem [uma que funcione bem, BTW] se calhar era um bom incentivo.

«2) "A inexistência de Deus deixa-te à mercê do mundo e das suas realidades, que podem ser realidades impostas ou não, fruto do teu estado de espírito ou de uma conjunção de factores exterior que tu não sabes se é irreversível ou passível de mudança."
Como se não estivesses à mercê do mundo caso ele existisse :P É por estas e por outras que a espécie humana tem que se unir e resolver os seus problemas civilizadamente.
»
Referia-me a paz de espírito, não a algo concreto.

Halloween said...

"Não, mas se tiverem crença na justiça suprema aliada à justiça do Homem [uma que funcione bem, BTW] se calhar era um bom incentivo."

O único problema disto é que as pessoas tendem as distorcer os factos de modo a fazerem o que bem quiserem. Alguém toma sempre o controlo da situação e faz o que bem lhe apetece, justificando depois naquele fantástico bode espiatório que não pode falar por si próprio. Mesmo quando assim o não é, as pessoas tendem a encontrar estranhas razões para fazerem o que bem querem e culpam tudo em escritas sagradas (ex: terroristas islâmicos e o Corão).

Nós não precisamos de isto para agir correctamente. Existe um conjunto de valores intrínsecos comuns: http://en.wikipedia.org/wiki/Moral_universalism , valores estes reforçados pelas leis de cada país (e por leis/declarações internacionais, como é o caso da Declaração Universal dos Direitos do Homem).

Acho que deviamos ser mais como os escandinavos, só isso.

Pedro Francisco said...

Tens razão.

Ia expor uma visão pessimista do mundo mas comecei a pensar que o que falta é justiça universal que funcione em tempo decente e regulação dos grandes grupos económicos para que não façam merda.

O futuro o dirá.

É que a quantidade de notícias de gente parva que um gajo tem de comer diariamente deixa uma pessoa desmotivada.

Sintra said...

Isso é como o comunismo: mto bonito no papel mas inaplicável no mundo real.

Halloween said...

1) "É que a quantidade de notícias de gente parva que um gajo tem de comer diariamente deixa uma pessoa desmotivada."

Agreed. Mas nisso também "temos" culpa, merda das noticias sensacionalistas :/

Halloween said...

2) "Isso é como o comunismo: mto bonito no papel mas inaplicável no mundo real."

Citando Freud:

"If the sole reason why you must not kill your neighbour is because God has forbidden it and will severely punish you for it in this or the next life - then, when you learn that there is no God and that you need not fear His punishment, you will certainly kill your neighbour without hesitation, and you can only be prevented from doing so by mundane force. Thus either these dangerous masses must be held down most severely and kept most carefully away from any chance of intellectual awakening, or else the relationship between civilization and religion must undergo a fundamental revision."

Sintra said...

Ou então mente-se ao mundo, faz-se uma lavagem cerebral, a ver se se acalmam os ânimos.

A questão que agora coloco é, se n és crente, porque n és um sociopata?
Por causa duns valores morais q definiste ou foram definidos pela sociedade? Podes segui-los em aparência, mas no fundo ser fdp à mínima hipótese.

Halloween said...

Voltando a usar a frase de Freud que acabei de citar:

"If the sole reason why you must not kill your neighbour is because God has forbidden it (...)"

Cá está.
Não sou psicopata porque dispenso as estas pseudo-moralidades religiosas. Acho que somos melhores que isso e não preciso de um hipotético castigo eterno em cima dos meus ombros para me comportar civilizadamente.

Porque não trocar velhos deuses por uma renovada fé na Humanidade? Porque não lutar por uma sociedade melhor? Mais equilibrada?

Imagina o que se alteraria neste planetazeco se todas as pessoas, por um dia apenas, se preocupassem com o bem estar de todos e não apenas com o seu próprio umbigo.

http://www.youtube.com/watch?v=4oAB83Z1ydE

Claro que se não funciona para ti, força. Acredita em deus. Acredita no Flying Spaghetti Monster, no Invisible Pink Unicorn, no Rui Costa e no Jorge Jesus ou, porque não, no sr. que inventou as quartas-feiras loucas da Telepizza? Estás no teu direito, desde que não prejudiques outras pessoas e culpes tudo num amigo imaginário.

Termino com isto: http://www.myconfinedspace.com/wp-content/uploads/tdomf/37782/atheismposter.jpg

Halloween said...

PS: Gosto imenso desta quote desse ad do youtube que aí colei: "Because the people who are crazy enough to change the world, are the ones who do."

PS2: É pá, quase me esquecia desta: “Is God willing to prevent evil, but not able? Then he is not omnipotent. Is he able, but not willing? Then he is malevolent. Is he both able and willing? Then whence cometh evil? Is he neither able nor willing? Then why call him God?” - Epicurius

Sintra said...

Eu não acredito em nada.
Simplesmente sigo as regras impostas pela sociedade (e mal) e sigo a moral que me impuseram. Pq? Pq n tenho paciência pra mudar e honestamente tou-me a cagar. Única comclusão a que cheguei foi: o q interessa é ganhar guito e viver num lugar onde te chateiem o mínimo possível. Se eu fosse rico n vivia em Portugal. Vinha cá no verão. E iria passar a vida a fazer o q bem me apetecesse.

"Porque não lutar por uma sociedade melhor? Mais equilibrada?"
Porquê fazer isso?
O que interessa é viveres o melhor possível, caga pros outros! (assim pensará mta gente; só n penso assim n sei como)

Antigamente havia conceitos como honra e fazer algo grandioso que te ultrapassasse. Esses gestos eu admiro. Mas isso já passou, e quem tentar fazer algo semelhante passa como palhaço.

Epicurius parece-me que andava ainda mais confuso q o pessoal de hoje. Ou então não tinha inteligência suficiente pra perceber como poderia Deus existir.

Halloween said...

Por acaso acho que se ganhasse o Euromilhões continuava a viver por aqui: nunca se passa absolutamente nada, dá para um gajo coçar bem os tomates :P Isto depois de ter dado umas valentes voltas ao mundo...

Quanto à honra, é esse conceito que devíamos recuperar. Tentar viver o melhor que podemos não é um impedimento; o problema é quando toda a gente se tá a cagar para os outros. Acho que é um dos problemas do nosso país, é sempre um "salve-se quem puder" desmesurado e depois andamos sempre a correr atrás do prejuízo.