2007-03-03

O Português

Carece de estrutura. Que é preciso para que o português tenha vida plàsticamente sua e a viva com a indispensável autonomia e carácter? Antes de ir mais longe convém examinar porque é que o homem que para aí se vê não esteve à altura de se talhar um habitat próprio, digno de europeu, em território onde a existência, graças ao clima em regra benigno, em despeito das qualidades medíocres do solo, podia ser fácil e fecunda. Se chamarmos a depôr a história, a etnografia, a demografia e compulsarmos as estatísticas, chega-se à conclusão de que o português é um íncola em estado de esgotamento. Melhor: é um íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe?

O português é um íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe? As causas foram várias e fazer a sua etiologia seria tarefa laboriosa e demorada. Assentemos, desde já, neste facto incontroverso, que não tem anos, mas séculos, e não precisa de demonstração: a maioria dos portugueses tem fome. Não se melindrem os ouvidos de vocências com o juízo calamitoso e pronunciem acentuando bem as sílabas, que soltam por cima do charco um grito de alarme: a maioria dos portugueses tem fome! [...] Portanto, primeiro que tudo, há que matar a fome do habitante, regenerando a planta humana raquítica, enfezada, de mau semental e mau fruto. [...] A tudo prima ter de comer à farta e moradia higiénica e saudável.

[A] célula lusitana, além de pobre, gasta, enfermiça, é de natureza compósita; compósita de godo, de romano, de berbere, de cafre, que sei eu! Tem o defeito dos híbridos: falta de carácter. O que para aí ficou é o rebotalho. O rebotalho de muitas raças escumadas pela guerra. O invasor chegava e tratava de exterminar: primeiro quem lhe resistia; depois quem o contrariava em sua vontade discrecionária e lhe disputava a fêmea. Para que o intruso gozasse da conquista, havia que proceder à eliminação do mais nobre, do mais forte, do mais varonil. Dêste modo ninguém lhe contestaria a posse de terra, da casa e da mulher, em geral as três ambições do homem que fazia a guerra. Assim deve ter sucedido com a colonização romana, depois com a invasão dos Bárbaros do Norte e não menos com a ocupação árabe. Destas três vagas, não falando doutras mais ou menos ante-históricas, subsistiu o que não teve ânimo para morrer ou emigrar, o débil e o tíbio, numa palavra. A selecção fez-se às avessas: perdurou o reles. Imagine-se agora que espécie de capital humano ficou desta filtragem malfazeja! O salóio que para aí se vê, insusceptível de progresso, inimigo da árvore, preguiçoso, sem ideal, sem beleza, é o exemplo eloqüente. [...] Não nos iludamos nem tenhamos vergonha de o proclamar, pois os sucessos da grei se sobrepõem à veleidade do indivíduo: somos uma espécie compósita, heteróclita, ainda não decantada no que muitas raças tinham de pior, miuçalha em suma.

Aquilino Ribeiro em o Arcanjo Negro

Portanto, semos a escumalha da escumalha e temos uma fome do caraças.
Altamente!
Minha frase preferida: "subsistiu o que não teve ânimo para morrer"
LOL

7 comments:

Sintra said...

"A selecção fez-se às avessas: perdurou o reles."
HAHAHAHAHA

katanas said...

Life is Overrated!! N so is this Coutry...

Telmo said...

I has a good, *POWERFUL* flag.

Sintra said...

I agree. Invest in death now, and be glad later!
Because, afterall, you'll spend more time dead than alive.
And, if you've already invested in death, die now, and receive a magnificent vacuum cleaner!

ArabianShark said...

Depois não me digam que não lem o "outro" blog por ser em inglês... :P

Mas, no fundo, o homem tem razão. Por essas e por outras é que a nossa cultura, por mais rica que seja (digo, tenha sido), é frágil. Quando não, vejamos: do que consumimos, quanto produzimos? Não vamos mais longe - achais que o nosso bom e velhos Starcraft foi congeminado por meia dúzia de protugas? Olhem que não! E o que é que, durante a década de 80 e 90 (mas, felizmente, cada vez menos) entretinha as famílias depois do jantar? Não era a telenovela *brasileira*? E quando começaram a aparecer as portuguesas, ninguém as via, e antes assim, pois, para pelagiar, já temos tantos outros exemplos: o Big Brother, inúmeros concursos, talk shows variados, etc.. E depois, o que é que produzimos com um mínimo de originalidade? Morangos com Açúcar e Floribelas! Não temos cultura senão a de bactérias!
Não vejo senão um aspecto em que insistimos em mantermo-nos (relativamente) adamantes: morfes! Apesar de MacDonalds e outros que tais, continuamos com o arrozinho e a couvinha e as batatinhas cozidas a acompanhar o peixito cozido ou o entrecosto ou a costeletita da praxe... mas o que é que quer isto dizer? Que a nossa identidade se resume à nossa barriga? Espero que não.
Por cá, deixamo-nos invadir por todos os estrangeiros em todos os aspecto. Digo eu, mais vale tolerar a invasão, e no fim, evasão. Tornemo-nos nós próprios estrangeiros (Ingleses ou Australianos ou Americanos ou Espanhóis ou pior) e deixemos isto aos marroquinos... eles sabê-lo-ão vender.

Quéfrô?

katanas said...

Concordo com o arabian... nao me parece que a réstia de identidade que nos sobra fique por muito tempo incolume... cada vez mais a cultura do "tuga" é uma cultura da MTV e Big Brother fragmentada... e isto chega ao ponto em que so nos sentimos minimamente bem (como nacao, ou com os outros e com a nossa identidade) quando a porra da seleccao ganha um jogo.
Isto é mau!!

E lamento desiludir-te arabianshark mas a Floribela é um plagio de uma novela da Venezuela dos anos 80, e os Moranguitos idem "" mas da TV Estatal do Quebec Canadiano...

We do have pitty...

ArabianShark said...

Não sei se algum dia vou recuperar dessa desilusão... O que eu julgava serem as piores criações de um país pelo qual cada vez tenho menos apego são realmente exemplos ilustrativos do que estava a dizer. 'Tá bem.

Agora que falas nisso, eu lembro-me de uma telenovela venezuelana (seria?) que passou na 2 para aí em '94 ou assim... chamar-se-ia "Carrossel"? É que do (pouco) que me lembro, é capaz de ter alguma semelhança com os Morangos. Com a FLoribela não sei, nunca consegui sequer tentar ver aquilo...