2006-10-31

Muito Murcho

A pergunta: Conheceis o Sr. Desidério Murcho?
A resposta: Tanto faz... ides gramar com o post na mesma.

Em abono dos que responderam "Não" sem lhe justaporem "nem me interessa" (ena tantos...), o senhor em questão é professor de Filosofia no King's College, em Londres. Hoje tenho, para vocês, um texto da autoria dele:

Para que serve a Filosofia?

A Filosofia, diz-se por vezes, não serve para nada. Isto é por vezes, apontado à nossa cabeça como se fosse o argumento final contra a filosofia.

[...]Mas será verdade que a filosofia não serve para nada? Claro que não. A filosofia, como a ciência, como a arte e como a religião, serve para alargar a nossa compreensão do mundo. Em particular, a filosofia oferece-nos uma compreensão da nossa estrutura conceptual mais básica, oferece-nos uma compreensão daqueles instrumentos que estamos habituados a usar para fazer ciência, para fazer religião e para fazer arte, assim como a nossa vida quotidiana. A filosofia é difícil porque se ocupa de problemas tão básicos que poucos instrumentos restam para nos ajudarem no nosso estudo. Os matemáticos fazem maravilhas com os números; mas são incapazes de determinar a natureza última dos próprios números -- têm de se limitar a usá-los, apesar de não saberem bem o que são. Todos nós sabemos pensar em termos de deveres, no dia-a-dia,; ms a filosofia procura saber qual é a natureza desse pensamento ético que nos acompanha sem nós darmos muitas vezes por isso.

Para compreendermos melhor as dificuldades da filosofia é conveniente pensar numa metáfora. Imagine-se que estou a fazer uma casa. Preciso de usar várias ferrramentas, como a pá de pedreiro, e vários materiais, como o cimento. Mas quando quero fazer uma pá de pedreiro, ou quando quero fazer o cimento, terei de usar outras ferramentas mais básicas. E depois de ter ferramentas para fazer as ferramentas com que faço a pá de pedreiro ou o cimento. E por aí fora. Experiemente ir para uma ilha deserta fazer uma casa sem levar nada da civilização. Será extremamente difícil: não terá ferramentas à sua disposição paar fazer nada, excepto as suas mãos e a sua inteeligência.

Num certo sentido, é esta a dificuldade da filosofia: estamos a tentar estudar as próprias ferramentas que usamos habitualmente para pensar. Por este motivo, falta-nos apoio. Mas não estamos completamente desamparados; temos a argumentação para nos ajudar. São os argumentos que fazem a diferença. São os argumentos que nos permitem [...] compreender melhor os conceitos que usamos no pensamento quotidiano, científico, artístico e religioso.

É agora claro que a filosofia serve para alguma coisa. Serve para compreendermos melhor a estrutura conceptual que usamos no dia a dia, na ciência, nas artes e na religião. Claro que a filosofia não serve para distrair o «povo», como o futebol ou a tourada. Mas também a matemática não serve para isso, nem a religião, nem a arte em geral. Para que serve Os Maias, de Eça de Queirós? Para que serve a teoria da evolução, de Darwin? Para que nos serve saber que só na nossa galáxia há tantas estrelas quantos os segundos que existem em três mil anos? Serve para sabermos mais sobre nós próprios e sobre o universo em que habitamos. Tal como a filosofia.


Desidério Murcho, A Natureza da Filosofia e o seu ensino, Lisboa, Plátano, 2002.


Pronto, já está. Espero que tenham gostado. Na verdade, espero, sobretudo, que o senhor Desidério Murcho não se tenha importado que eu tenha aqui reproduzido parte da sua obra sem lhe pedir autorização, mas pode ser que ele encare este pequeno atrevimento como uma forma de espicaçar os vossos apetites em direcção a procurarem mais da sua obra.

Pax vobiscum atque vale.

Bem, já lá vão dois posts grandes hoje, um aqui e outro no "outro blog". Vou mas é dormir que amanhã tenho que ir apanhar uma coça em UT (entre outros, naturalmente).

6 comments:

Sintra said...

Este comment não será em meu nome. Farei-o antes em nome do . também conhecido como Mito.
Esse jovem uma vez disse:
"A Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual, tudo fica tal e qual."

Grandes palavras.

katanas said...

Holy Moly

obnibolongo said...

Lembraste-te disso devido ao governo querer acabar com Filosofia no Secundário?

Devo dizer que quando tive Filosofia (ou Introdução à Filosofia, na altura), achei que a disciplina se deveria chamar "Introdução ao marranço sem debate prévio".

A disciplina de IFL, nos moldes em que a tive, era uma disciplina onde se apanhava uma seca e se aprendia coisas para decorar. Não tinha maturidade mental para a compreender, da mesma maneira que não a tinha para Fernando Pessoa, e diga-se de passagem, da maneira como era dada, era aborrecido. Para além do mais uma disciplina dessas, para ser dada como deve ser, tem de ter não só um professor capaz como uma turma disposta a ouvir.

Por isso quanto a IFL, acho que não serve para nada.

Mas quanto à Filosofia acho que é útil. Mas tem de partir da pessoa, não se pode enfiar Filosofia pela garganta abaixo. Um livro talvez, mas Filosofia em si não.

Devo também acrescentar que há um filósofo nos Estados Unidos creio, que aconselha diversas obras a pessoas que o vão procurar com questões existenciais, ou perante situações difíceis.

Claro que os psicólogos todos atacam esse gajo a dizer que ele está a roubar trabalho e não está a ajudar as pessoas, mas creio mais nele quando diz que a "terapia" funciona.

Temos portanto mais uma utilidade da Filosofia. Grandes problemas da vida de uma pessoa levam a que a pessoa se esteja constantemente a questionar sobre o problema de perspectivas diferentes. Que melhor há se alguém já tiver analisado um problema semelhante até à exaustão?

ArabianShark said...

Quanto a IFL, tive uma grande sorte (ou um grande azar) em o programa leccionado e o método de avaliação serem um bocado dispares. Tinha melhor nota quem escrevesse mais (ou seja, eu) e melhor (ou seja... ok, eu escrevia benzinho... desenrascava). Tive tb uma grande sorte (indiscutivelmente sorte) no 11º ano, quando o docente mantinha as aulas... interessantes.

Acabei com uma nota fixe. Filosofia é baril.

Sintra said...

meh...
Filosofia foi seca.
A não ser a parte da lógica.

Fábio said...

Filosofia?? (até me dói a escrever!!)

Quanto a isto só tenho a dizer que um (futuro)engenheiro não deve sequer pronunciar(ou escrever) o nome do Diabo, muito menos publicamente!

Shame on you!

LOL