2016-06-10

Pátria

(Já viram que dia é hoje?)

Aqui há dias fui acusado de não ser patriota e de não gostar de Portugal. Mas já respondo a isso...

Durante uns anos, a minha avó viveu numa residencial. Não era propriamente um lar de idosos, mas, na prática, era isso que fazia. Certa vez, calhava ser dia 25 de Abril, encontrou certo senhor idoso que, noutros tempos, fora simpatizante do regime fascista, ostentando uma gravata negra.

"Morreu-lhe agluém?" Perguntou a minha avó.

"Não." Respondeu, gravemente, o cavalheiro. "Estou de luto pela Pátria!"

"Pátria?" Comentou o meu pai, ouvindo a minha avó a contar a história. "Eu também tive isso quando era pequenino, mas depois passou-me."

Eu acho que "Pátria" é uma palavra um bocado perigosa. Sempre que a ouço ou a leio, vejo imagens de mártires que se sacrificaram não sei ao certo por o quê. Ao ser acusado de não ser patriota, lembrei-me de listar alguns lugares-comuns de patriotas ao longo da história de várias nações.

Havia os patriotas que se entregavam às lâminas sarracenas para empurrar para sul a fronteira do que havia de ser Portugal, mas esses eram, sobretudo, impelidos pela motivação de retomar as terras em nome do cristianismo. Ou seja, morreram por uma doutrina (que creio que a maior parte de nós considera falsa e) que nunca sequer soube os seus nomes.

Havia os patriotas Americanos, que, desafiando a vontade do Rei George, se entregavam aos mosquetes ingleses, mas esses eram, em última análise, motivados pela máxima "no taxation without representation". Ou seja, morreram por dinheiro (OK, não foi exactamente morrerem por dinheiro, mas entendeis o que quero dizer).

Houve o Imperador Pedro I do Brasil, que quis à viva força que essa colónia sul-americana deixasse de ser pertença de Portugal, mas todos sabemos que esse estava, sobretudo, a fazer birrinha porque lhe tinham tirada a coroa. Esse queria era mandar.

(Há aqui muita gente interessante pelo meio, mas vocês, se ainda não estão fartos de ler isto, hão de o ficar na mesma em breve, e escrevinhar para aqui mais coisas já só havia de servir para vos maçar.)

E agora há uns indivíduos que gritam "Allahu Akbar!" antes de rebentarem aos bocados, e que não caem exactamente ao abrigo da definição tradicional de "patriota", mas que, bem vistas as coisas, não deixam de ser fundamentalmente semelhantes.

Mas o que é que vem a ser "morrer pela pátria"? O que é, ao certo, a "Pátria"? Não me venham dizer que é o país onde se nasce, porque isso não responde à pergunta, só muda os termos da mesma. Morreríeis por qualquer talhão de terra por terdes tido a desventura de nascer lá? Valer-vos-ia a pena de vos sacrificardes pela soberania de um país constantemente em mudança de líderes, alternando os que ninguém quer e os de quem ninguém gosta? No caso das monarquias (e não digo as monarquias como o Reino Unido, em que nem o monarca nem a família real representam poder político de facto), compreendo que alguém tenha tanta fé no monarca e na sua linhagem que queira vivamente lutar por eles, mas neste regime de eterna mudança, por vezes para melhor, por vezes para pior, mas, aparentemente, nunca sequer para bem, "patriotismo" acaba por me soar ao nome de um veneno que faz os inocentes quererem perder-se por que se não perca quem lá fica a engoradar de desprezo pelos ideais que levaram à perda enganada de quem se quis sacrificar.

Dito isto, gosto de Portugal. É um país engraçado. Faltam algumas coisas (sobretudo juízo), mas a maior parte do que é indispensável já está. E tem sítios bonitos: campos verdes, serras viçosas ou nevadas, e até praias que, diz quem gosta disso, são um espectáculo (e lá nisso até os estrangeiros parecem concordar).

Agora patriota é que não sou. Não critico ninguém por ser, mas vinde-me pedir o que quer que seja "pela pátria" planeando voltar por onde viestes; se a pátria, seja isso o que for, realmente quiser algo de mim, que se mostre e venha falar comigo cara-a-cara.

Faz hoje 2 ou 3 anos, estava eu em Londres, num comboio, quando ouvi uns cavalheiros a falar português. Conforme saíram, antes de mim, aproveitei para lhes dizer "feliz dia da nossa Pátria!". Não queirais ler algum significado mais profundo nesse gesto.

Pax vobiscum aque vale.

Para todos os meus estimados colegas e amigos, sobretudo aqueles que (ainda ou já) estão no estrangeiro (outra vez), feliz dia da nossa Pátria.

2 comments:

Sintra said...

Epa, quando alguem me acusa disto ou daquilo, vejo imediatamente como tentativa de manipulacao e a partir dai so quero que essa pessoa se foda. Quando se trata de patriotismo entao, so me apetece espetar-lhes uma bofetada. Irrita-me profundamente.

Sou tao portugues como tu e como os outros, e isso chega. Nao vou fazer loucuras por um pais governado por bandidos e onde os ladroes sao elevados a herois. Estou como tu, patriota nao sou, e quem eh, eh burro para caralho.

pedro said...

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