2013-09-09

Saúde em Portugal

Tem-se falado muito nos incêndios e, antes disso, na crise política e, já desde antes disso, na crise financeira. Ainda ninguém se lembrou de falar neste assunto da saúde, o que é estranho, porque, no dia em que alguém se achar doente, ninguém quer saber de quanto vale o Euro face à Libra nem quem é o ministro de tal pasta antes de ir falar com o médico. Há uma história que convém saber-se...

Os meus estimados colegas e amigos decerto não ignoram que, pouco antes do "nosso tempo", havia em Portugal uma atitude vigente de uma certa veneração de "doutores (médicos) e advogados". Criou-se a imagem de que os médicos eram uma classe de pessoas altamente treinadas, muito inteligentes e, sobretudo, que ganhavam rios de dinheiro.

Ora, não esperem que vos venha dizer que os médicos não são altamente treinados, porque é claro que, entre curso, internato e especialização, são altamente treinados.

Igualmente, não esperem que vos venha dizer que não são inteligentes, se bem que, como em qualquer profissão, existe sempre o risco de vos sair na rifa uma besta de proporções bíblicas, mas, em geral, sim, são indivíduos particularmente inteligentes.

A parta da antiga imagem que venho atacar é precisamente a dos "rios de dinheiro". Deixem-me começar por dizer que, noutros tempos, era perfeitamente verdade: os médicos fartavam-se de facturar. Entendam que, contas feitas, um médico, no auge da fortuna da sua classe, ganhava, à hora, menos que um professor do liceu, mas havia uma diferença fundamental: um médico tinha sempre mais possibilidade de trabalhar mais horas extraordinárias que um professor.

Há aqui um factor que ainda não mencionei e que é importante: tenho vindo a falar de médicos "do estado". Por "do estado" quero dizer médicos que tenham celebrado com o estado um contrato de exclusividade, que, se não me engano, surgiu ou em finais da década de 80 ou princípios da década de 90. Este contracto estipulava que, em contrapartida de um salário algo melhor, o médico ficava inibido de trabalhar para clínicas privadas ou por conta própria.

Dados os dois últimos parágrafos, deixem-me descrever-vos a situação do que julgo ser a maioria dos médicos portugueses até aqui há bem pouco tempo: o Sr. Dr. Povinho (sem dúvida parente do Sr. José "Zé" Povinho, de Bordalo Ribeiro) trabalha num Centro de Saúde, onde pratica, por exemplo, medicina familiar, sete horas por dia, seis dias por semana. Finda a hora da consulta, o Dr. Povinho vai trabalhar para as Urgências do hospital mais próximo, onde lida com, dependendo da altura do ano, narizes ranhosos e bêbados com um lenho na cabeça ou constructores civis que tiveram um acidente de trabalho e toxicodependentes em sindroma de abstinência, doze horas por dia, três dias por semana.

Rapidamente concluis que os médicos que se fartavam de ganhar dinheiro também se fartavam de trabalhar. Surgem as medidas de austeridade...

Subitamente, aos médicos que não podem, por contracto, trabalhar senão nas instituições de saúde do estado (nomeadamente, centros de saúde e hospitais) vêm dizer que é ilegal que trabalhem horas extraordinárias num hospital. Acontece que os hospitais agora são empresas de saúde publico-privadas e, como tal, já não caem ao abrigo de "instituições de saúde do estado". As repecussões para os médicos são graves:

- Trabalham menos horas;
- Recebem muito menos dinheiro.

A esta altura sois capazes de estar a pensar, "mas os sacanas dos médicos ganhavam tanto que também não lhes faz mal nenhum ganhar menos". Meus caros, não se trata de um corte no ordenado; trata-se de uma mudança de ordem de grandeza do ordenado. Aliás, o Dr. Povinho, acima referido, não contava grandemente com o ordenado auferido pelas oito horas por dia, cinco dias por semana no Centro de Saúde; tratava-se simplesmente de não poder trabalhar horas extraordinárias sem que primeiro trabalhasse horas ordinárias.

Agora olhai-me seriamente nos olhos e dizei-me que, no lugar do Dr. Povinho, no auge da sua carreira e a ganhar os tão almejados rios de dinheiro, não vos comprometeríeis a gastá-los? A única dúvida que se poria é como os havíeis de gastar. Muita sorte teria o Dr. Povinho se se comprometesse apenas a gastar o seu dinheiro em compras que pudesse pagar de uma assentada, como umas grandes férias, ou um ou outro bem de consumo ou de luxo.

Mas e se o Dr. Povinho tivesse acabado de se divorciar, tivesse um (ou dois) filhos a entrar para a universidade e um carro velho, a dar as últimas? É claro que, à falta de uma casa, um carro e educação superior para os dependentes, o Dr. Povinho se comprometeria a dedicar os seus rios de dinheiro a comprar uma casa, um carro e pagar propinas (e eventuais rendas, e consumos, e comidas, e transportes, e... mas eu conheço-vos a todos da Universidade; sabeis tão bem como eu em que é que os vossos pais gastaram (ou gastam, conforme o caso) dinheiro convosco). Ora, o Dr. Povinho, que não é nenhum idiota, sabe que não tem dinheiro para uma vivenda geminada de dois andares e quatro quartos, nem um Audi A8 nem cinco (ou mais) anos de gastos com os rebentos, mas pode ir pagando à medida que recebe e manter um estilo de vida bastante confortável, na certeza e segurança de que, enquanto não se lhe acabe a vontade de trabalhar que nem um cão, o Estado, com quem celebrou um Contrato de Exclusividade, vai continuar a pagar-lhe pela mesma medida, e... bom, já sabeis que esta história vai acabar mal.

Resumidamente: o Estado traiu os seus médicos.

Surge aqui outra questão: então e os hospitais? Se o Dr. Povinho e os seus colegas, que lá trabalhavam doze horas por dia, três vezes por semana, já lá não podem trabalhar, quem é que lá trabalha? Ah, mas para essa questão há resposta pronta! Logo as empresas públicas de administração privada (o termo pode não estar correcto, mas palavra de honra que não sou só eu a ser deliberadamente malicioso e a inventar termos inconsistentes; os culpados têm mesmo um título absurdo) anunciaram recorrer a empresas privadas de saúde (de novo, a mesma nota), que vêm a ser mais ou menos empresas de trabalhadores temporários, só que com médicos. Ora, estas empresas propoem contratos ao hospital, mediante os quais asseguram um número de médicos durante um número de horas por semana ao longo de um período de tempo em contrapartida de determinado pagamento, parte do qual é distribuída entre os médicos envolvidos. Naturalmente, esta mudança representa uma (enorme. Enorme. ENOOOOOOOOOORMEEE!!!) economia de dinheiro, o que não é senão natural, uma vez que passámos de um paradigma de "pago-te para fazeres o teu trabalho" para um paradigma de "preciso de quem me faça este trabalho e pago a quem me fizer a oferta mais baixa" (reparem como os profissionais de saúde subitamente passaram a ser tratados como empreiteiros).

E que dizer dos médicos dessas empresas privadas? Pergunto-vos simplesmente isto: que médico é que, podendo trabalhar para o estado e ganhar rios de dinheiro prefere trabalhar para uma empresa que lhe paga, na melhor das hipóteses, o mesmo que ganharia só nas horas ordinárias do estado? Enquanto debateis convosco mesmo se se trata de estúpidos que não compreendem o valor do dinheiro ou de profissionais inferiores que o estado não seria capaz de, em boa consciência (vá lá, parem de rir. Eu sei que disse "estado" e "em boa consciência" na mesma frase, mas a saúde é assunto sério), contratar, adianto-vos que, muitas das vezes, se trata de pessoas que nem sequer falam a língua do país em que se fazem empregar, já que, no país deles, o estado, em boa consciência, não os pôde empregar.

Portanto, enquanto o Dr. Povinho empalidece perante as prestações do carro e da casa que, subitamente, já não pode pagar, o seu primo Zé vai às Urgências, onde é atendido por um imbecil que, nem que fosse capaz de entender as queixas do seu paciente, provavelmente pouco mais saberia dizer-lhe que tomasse duas aspirinas e um copo de leite morno.

Deixo-vos com o seguinte aviso: não adoeceis em Portugal. O Estado já não emprega quem saiba cuidar de vós.

Na verdade, não vos deixo já, não sem antes deixar ominosamente a leitura recomendada, que não é sequer uma leitura, mas antes o filme "Sicko", de Michael Moore, onde o realizador expõe os males de um sistema de saúde aparte do estado, e advertir sombriamente que o mesmo se vai passar na terra outrora de Camões.

Pax vobiscum atque vale.

1 comment:

Carlos Ferreira said...

A questão não são os médicos de clínica geral.
A questão assenta nos médicos cirurgiões. Esses sim, são muitooo bem pagos.

Um médico de clínica geral acabado de entrar que vá tirar a especialidade, tem um ordenado a rondar os 1100-1200€ por mês.

Os médicos cirurgiões são pagos dependendo das cirurgias que fazem.