2012-03-17

Geraldo Geraldes, o Sem Pavor



Introdução:
Há mais de 4000 anos atrás, uma tribo celta funda no alentejo uma pequena aldeia de nome desconhecido. Com planícies férteis a toda a sua volta mostrou-se como o local ideal para se poder prosperar em pleno alentejo. Milénios passam, e no século II a.C, Sertório, o Romano, dá-lhe o nome de Liberalitas Julia. Depois da guerra civil Romana, é conquistada por Décimo Júlio Bruto, tomando o nome de Ebora Cerealis tal não era a fertilidade dos campos circundantes (até a cidade é devotada à deusa da caça e fertilidade). O império romano cai, e em 711 é conquistada pelo mouro Tariq e fica séculos sob jugo àrabe, donde toma o nome de...

Yeborah

Yeborah:
E Yeborah continou, mesmo contra a vontade de Afonso, o Conquistador, primeiro rei de Portugal. Em luta pelos domínios alentejanos, Afonso é derrotado em 1169 e para além de perder 6000 de 15000 homens é ele próprio derrubado do cavalo onde depois sofre de uma terrível ferida provocada por uma maça de guerra moura, que lhe esmaga a perna...


Muitos dos ganhos de Afonso foram então perdidos, e apenas não o foram permanentemente por causa de homens como Geraldo Geraldes. Pouco se sabe sobre suas origens. Alguns dizem que era um nobre do norte do País, outros dizem que era apenas um criminoso e arruaceiro moçarabe (cristão que nasceu já sob o jugo árabe), mas a verdade é que nos anos após a derrota de Afonso, Geraldo espalhou o terror pelo Alentejo, salteando, roubando e criando o caos em território Mouro. Talvez devido ao ferimento, ou talvez à "lua de mel" com a sua 3ª mulher, os anos depois de 1969 foram o "eclipse" de D. Afonso.

Diz-se que Geraldo e seus fora da lei construíram um pequeno castelo, escondido entre arvoredo e rocha, e de tal difícil acesso que permanecia desconhecido aos infiéis. Conta a história que Geraldo trepou ele próprio os muros de Évora(Yeborah) a abrigo da noite, mata os guardas dos portões, e introduz o seu bando de arruaceiros em Évora. No próximo dia, executa o governador mouro, saqueia a cidade e envia um quinto do espólio a D. Afonso.

É claro, D. Afonso dá o título de cavaleiro a Geraldo, e Geraldo retribuí. Conquista Évora, Serpa, Alconchel, Montachês, Cáceres, Juromenha e até Badajoz, oferecendo sempre as cidades conquistadas a Afonso, rei algures lá no norte.


É então que acontece o impensável, Geraldo e seu bando vão a Sevilha, em frente do próprio Califa e oferece as suas armas aos mouros. Afonso escreve para todos os territórios Portugueses, ordenando a morte de Geraldo caso volte a por pé em terras lusas, mas, sabendo da forma como Geraldo fazia guerra, envia em segredo uma carta rogando-lhe que fugisse, e oferecendo até reforços militares para salvaguardar o seu regresso.

Geraldo ignora os avisos, e a abrigo do Califa desloca-se até Ceuta, o coração das rotas mercantes e porto de onde todos os mouros faziam a travessia de África até à Península. Aí Geraldo escreve carta para Afonso, para que ataque Ceuta, que ele e seus homens garantem os portões abertos e muito caos entre os defensores. Teria sido uma conquista digna de todos os livros de história, mas o destino quis que esta carta fosse interceptada, e Geraldo e seus homens morreram ali, longe da Portugal. Não há canções a cantar o seu valor, e nenhumas linhas nos livros de história, mas verdade é que todos nós devemos um pouco a Geraldo, o sem Pavor.

6 comments:

Hal said...

Espectacular posta, Brave Sir Historiador Peres.

Desconhecia muita coisa e, de facto, é uma pena que a carta nunca tenha chegado a D. Afonso Henriques. Em todo o caso, conquistámos Ceuta uns 300 anos depois e não rendeu grande coisa...

Mais valia terem feito rush a Madrid. Depois uniam os reinos (pelo menos na minha cabeça era smp Ibéria) só paravam na Dinamarca! Total War não engana ;)

Tenho jogado o tal jogo de tabuleiro de Game Of Thrones e tem sido espectacular. Jogo também num site via fórum. Se quiseres experimentar diz qq coisa.

Peres said...

300 anos depois Ceuta não rendeu por um motivo, já não havia mouros na península. No séc XII ceuta era o porto de selecção para o embarque de todas as tropas árabes para entrarem na península, onde simples barcas eram suficiente para a travessia. Era também o local onde chegavam os cereais de terras lusas e espanholas e partiam os têxteis e essências de todo o norte de África. Tomar Ceuta nessa altura, ou até apenas pilhá-la, significava que os reis católicos iam ter carta branca na península para a reconquista, e os emires de Al-andaluz dificilmente iam conseguir reforços em tempo útil.

Outro problema da época Hal. As terras conquistadas aos mouros não eram terras cristãs. Estavam quase 100% muçulmanizadas, impostos que se conseguiam recolher eram quase nulos, recrutas para lutar ainda menos, e as sublevações e revoltas populares eram mais que muitas. Não é por acaso que o filho de D. Afonso recebe o cognome de povoador, pois passou um reinado inteiro a incentivar católicos do norte de portugal a se mudarem para as terras recemente conquistadas, para lentamente as cristianizar (ou fidelizar se preferires outra palavra). O tal rush a Madrid ia apenas dar-te mais um ninho de vespas para gerir durante gerações.

Vou ver isso sobre o Game of Thrones. Tem apenas cuidado se te convidarem para casamentos.

Sintra said...

Nunca me deixam de fascinar estas historias do antigamente.
MOOOOOOOOAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRR!

Carlos said...

Ena ena, bom artigo sobre o belo General sem Pavor!
Sim, concordo que um Rush naquela altura até Madrid, iria ser um ninho de vespas, até porque pelo que sei, só por finais do Séc XV é que a Peninsula Ibérica se viu livre de todos os Mouros... Não seria bonito ter uma batalha de duas frentes...
Pelo que me lembro, Ceuta tb não rendeu grande coisa, pois as rotas de comércio árabes, alteraram as rotas de comércio após as conquistas no norte de África, deixando-se de fazer comércio em Ceuta...

Na minha opinião, a melhor coisinha que se fez, foi mesmo ter descoberto o caminho marítimo para a India... isso é que rendeu bué... lol Há que dar mérito à inovação!

joaquim said...

Grande imaginação, Peres!
Quem a História deturpar ao inferno vai parar.
Ah, Hal, era estúpido fazer um rush a Madrid que, à época, era uma espécie de Bucelas de Toledo, Toledo que, aliás, já tinha sido conquistado pelos cristãos.
Oh, well!

Peres said...

Está romantizado, mas o pouco que se sabe de Geraldo está lá :p

Podia ter seguido a rota do que está escrito na "história" da época, em que Afonso batia na Mãe, nasceu com as pernas juntas e os anjos desceram na batalha dos campos de Ourique para lhe dar a vitória.