2005-06-30

Para Além do Bem e do Mal (desculpa, Friedrich Wilhelm)

Não raras vezes dou comigo a pensar se escrevo porque tal me preenche...ou se, pelo contrário, colocar pensamentos por palavras (actos e omissões - não resisti) é como puxar um autoclismo interior. Mas que se dane, a verdade (e ela existe?) é que me permite alhear da minha eterna odisseia de descoberta do meu lugar.
Mas vamos a isto, pois que sinto o metabolismo abrandar a cada letra. E uma vez mais vos proponho (caros irmãos - eu tenho de parar de gozar com os senhores da Cruz) um exercício, que, espero, se revele ainda mais capaz de mexer com as vossas entranhas (só para o caso do anterior não o ter feito) do que a questão da tristeza e da alegria. Companheiros de pensamentos demasiadamente intrincados para permitirem uma vida social razoavelmente fútil e, portanto - atendendo à sociedade de hoje - saudável: Existe...Bem e Mal?
Dizem os Pearl Jam - esses oráculos na Terra - o seguinte: "There's no right or wrong, but I'm sure there's Good and Bad" Thumbing My Way to Heaven, versículo 4, parágrafo 35. Da forma como eu o vejo, o verso indica-nos as intenções como o ponto de um acto a medir. Será correcto, este ponto de vista? Se, com a teoricamente melhor das intenções - amarmos alguém (num próximo post explicarei porque acho o amor e a paixão elementos com muito de nefasto) - prendermos essa pessoa em casa para que não se magoe...é correcto? Ou errado? E é um exemplo de prática do Bem? Ou do Mal? Seguindo a lógica Pearljamiana - soa-me a nome de droga... - é um acto Bom. Não interessa se a/o prisioneira/o por amor (obsessão!, grita o povo, e eu quase que grito com ele) é tocado pelo espectro da demência, por ter de conviver consigo mesmo e os seus pensamentos , cada vez mais livres das grilhetas - quem diria que podem ser saudáveis - da rotina e da sociedade. A intenção foi proteger o ser amado, e provavelmente não há melhor razão para um acto. Mas, e se um(a) outro/a apaixonado/a pela pessoa em causa se dá conta do trágico rumo que a vida desta tomou? Não terá ele razões para, digamos, matar (no mínimo umas costelas, convenhamos) o/a Romeu/Julieta del Cárcere? Afinal, trata-se do indivíduo responsável pelo boicote do futuro deste último apaixonado com a pessoa aprisionada.
Seguramente já deu pa perceber que é uma flor plena de espinhos, esta questão...por um lado, as intenções são extremamente importantes. De nada vale ajudar uma pessoa se a intenção é sermos nós a enterrar-lhe qualquer vontade de viver. Assim como não pode ser descurada a intenção de uma pessoa que causa problemas a outra ao tentar ajudá-la. Mas, vistos do lado das consequências, estes dois casos ficam completamente alterados.
Mais uma vez aguardo, na minha poltrona - útero de cada novo pensamento meu - os vossos pontos de vista. Porque, como já alguém dizia, a graça da vida é que passamos muito (demasiado) tempo a tentar entender, não só os actos de outros, mas também (estranho, não?) os nossos. Ide em Paz, e que a Força esteja convosco.
Ah, e não se esqueçam do que dizia Nietzsche: "Qualquer acto de amor está para além do Bem e do Mal." Por isso, apaixonem-se por tudo o que fazem. Só assim sairão de uma grande idiotice com a consciência limpa. Tanto quanto possível, pelo menos.

2 comments:

mr_saori said...

Antes de mais devo avisar que hoje estou com um sentido de humor inconstante, tanto para o bem como para o mal (signifique o que significar o bem e o mal).

Quanto ao primeiro parágrafo tenho a dizer que a escrita permite-nos congelar a nossa opinião acerca de alguma coisa.

Usando a tua metáfora, esvazia o autoclismo que pode ser o cérebro e arruma a merda, cristalizada, numa prateleira, até mais tarde ser preciso pegar numa picareta para a desfazer e reconstruir os pensamentos com outra forma, quer seja por novos desenvolvimentos quer seja por um pormenor que nos lembramos.

Permite livrarmo-nos temporariamente dos problemas mas, ao contrário do sistema de saneamento básico, permite-nos recuperar o que pensámos para mais tarde construirmos algo em cima da nossa base estabelecida, ou, se necessário, construirmos uma nova base, tendo, devido à escrita, consciência dos erros cometidos da primeira vez.

A escrita é, portanto, a nossa fossa pessoal.

Mas mesmo que não tenhamos acesso aos nossos antigos textos o facto de escrevermos algo força-nos a concentrar no tema da escrita, obtendo, assim, opiniões com as quais estamos mais seguros. Por exemplo, para escrever um comentário vejo-me muitas vezes obrigado a desligar a música sobre pena de se não o fizer não conseguir fundamentar o meu texto. A escrita é um incentivo à fundamentação clara do assunto, quer seja por palavras ou mentalmente.

Quanto ao bem e o mal somos maus juízes quando se trata de decidir isso sobre a nossa vida. Prefiro isentar o meu raciocínio desse trabalho e entregar-lhe apenas a avaliação de pessoas das quais posso fazer uma avaliação fria e distante.
Até porque eu posso muito bem achar que é politicamente correcto fazer uma coisa e não o querer fazer. Para quê dedicar muito pensamento a isso? É mais fácil pensar: “penso que não devia fazer isso, vou amaciar um bocado a coisa mas não vou negar os meus sentimentos”. É mais saudável. Até porque eu sou casmurro e nunca me consigo convencer a mim mesmo. Mas a discussão do Bem e do Mal com nós mesmo é infrutífera. Sempre. Why bother too much, then?

hobbes said...

Mais uma vez penso…vou de encontro a mim própria à procura de respostas…gastar o tempo (bem gasto) a tentar entender actos, sensações, sentimentos…gostei da ideia de autocolismo interior…no fundo é um pouco isso que acontece sempre que escrevo…quanto à verdade, penso que cada um tem a sua…este mundo é uma…”rebaldaria”…
E como tal…cada um tem a sua noção de mal e de bem…mas todos colocamos na nossa vida os nossos extremos…muitos deles já nos são incutidos em pequenos, matar é mau…matar é tirar a vida a outra pessoa…todos temos direito à vida…e ninguém tem direito de contrariar essa regra básica…assim, a meu ver, não se prende ninguém em casa…tudo bem, existe amor e o desejo de que nunca aconteça nada de mau mas nesse caso estaríamos quase como que a tirar a vida para apenas proteger…isso estará certo quando virmos de determinada perspectiva…as intenções eram boas...proteger a pessoa amada…mas seria assim o prisioneiro tão passivo? A questão é…fazemos o que achamos certo desde que isso não influencie negativamente ninguém…e, caso influencie, acho que devemos ter o consentimento da outra pessoa…ou seja…”De nada vale ajudar uma pessoa se a intenção é sermos nós a enterrar-lhe qualquer vontade de viver…”
Por isso…pouco disse…
Deixo aqui o meu comentário…e a prova de que continuo a pensar…:)