2017-07-10

Sardinhas com esparguete, e....canadianos?

Posso dizer agora que sim, já vi de tudo.

Encontrei uma banda que me deixou extremamente confuso, e bem disposto!

Apresento "The Dead South".

Bom, vamos lá.
Uma banda que toca Bluegrass music, do sul profundo dos estados unidos,
Embora a banda seja Canadiana, de Saskatchewan (tive de fazer alt-tab 5 vezes para escrever aquilo),
Embora 2 dos membros sejam ex-metal, e isso se note na voz,
E o gajo do banjo ser na realidade um profesor substituto sem mais nada que fazer,
E o 4º tipo estar completamente deslocado ali no meio...
E a publisher ser alemã,
E,... Enfim, carreguem ali em baixo, e vejam se não tenho razão



2017-05-24

Blast from the past

Ao ler em vários lugares por essas "internetes" fora que as universidades andam, um pouco por todo o mundo, a descambar numa libertinagem esquerdista extrema e, digamos, idiota, polvilhada de parangonas como "aluno processa professor por "micro-agressão" e racismo" quando tudo o que o professor tinha feito foi corrigir a ortografia e gramática do aluno ou a história do professor de sociologia que mostrou uma imagem composta por várias silhuetas idênticas de esqueletos humanos, cada uma rotulada como pertencendo a uma ou outra raça, defendendo a noção de igualidade, e depois expulsou da sala a aluna que o recordou de que os esqueletos humanos, à semelhança da pele e das caras, têm características que os permitem identificar como pertencendo  a uma ou outra raça e mesmo diferenceiar entre sexos e idades (mas vamos deixar as altas discussões políticas para o /pol/).

Quis, portanto, por curiosidade, saber em que estado está a nossa alma mater, e achei que não tinha melhor que procurar o velhinho fórum de curso. Sucede, não surpreendentemente, que o velhinho fórum de curso (que morava no número www.ect-ua.com da rua http://) já morreu, e há agora um rapazote novo a fazer o trabalho dele noutro lado, de maneira que procurei no google "fórum telemática Aveiro" (porque o Google costuma perceber estes telegramas cifrados que, se ditos às pessoas, garantem, no mínimo, um olhar estranho e, no máximo, uma visita ao hospital psiquiátrico mais próximo, com opção de um olho negro), esquecendo-me que ia encontrar uma resma de resultados sobre o centro comercial Fórum.

Mesmo assim, encontrei, na página inicial, o novo fórum de curso. Surpreendentemente, no entanto, vários resultados antes, encontrei este link:

http://sweet.ua.pt/goucha/ect/index2.htm

Pax vobiscum atque vale.

2017-04-10

As escolas fazem mal à democracia #Brexit

Isto o chuveiro é realmente um excelente lugar de contemplação... Aqui há dias, ocorreu-me o seguinte:

No Reino Unido andam às turras por causa do Brexit, apesar de o Brexit ter sido aprovado pela maioria do povo. Na América, andam às turras por causa do Trump ser presidente, apesar de ele ter sido legalmente eleito*. E eu só me pergunto, "Então mas essa tropa, depois de ter votado e de ter perdido, vem agora fazer barulho? Isso não era coisa para ter sido feita antes da votação?"

Porque, afinal, vejamos: Não visa a democracia ser o sistema mais justo de governo, mediante o qual cada cidadão, igualmente representado no acto do voto, respeita e acata a decisão da maioria? Com que legitimidade é que fulano me vem dizer que cicrano é um fascista quando cicrano foi devidamente eleito?

Aceito que me digais que quem votou numa opção ou noutra tem o direito de mudar de opinião, mas não concedo a ninguém o direito a mudar o voto**.

Se calhar, a esta altura estar-se-ão a interrogar, "Então mas que raio tem a escola a ver com isto?". Ora bem, quando eu andava na escola lia bandas desenhadas do Homem Aranha e ia às aulas (não ao mesmo tempo). Nas aulas, às vezes, tínhamos o direito de votar numa lista ou outra para a associação de estudantes. Eu nunca me meti nessas políticas, sobretudo porque nunca ninguém me soube explicar exactamente para que é que servia a associação de estudantes****, de tão entusiasmada que estava toda a gente com o prospecto de umas dispensas ocasionais das aulas para tratar dos assuntos da associação. Ora eu, mesmo não gostando lá muito das aulas, não via que valesse a pena estar a meter-me de cabeça numa embrulhada desconhecida para poder faltar impunemente. Em consequência do mesmo (entenda-se, de não se saber muito bem para que é que servia a associação de estudantes), as "campanhas eleitorais" de cada lista consistiam em tocar música muito alto, distribuir autocolantes e guloseimas variadas e, se os membros ou apoiantes não se importassem de contribuir, reunir umas consolas e umas televisões pequeninas para aliciar os eleitores, mas nem um vestígio dos seus valores, das suas prioridades ou das suas propostas. Posto isso, a decisão eleitoral recaía sobre factores secundários idiotas, como sejam "qual é a lista que tem mais amigos/colegas meus", "qual é a lista que mais colegas meus apoiam", "qual é a lista que me deu mais ou melhores rebuçados", "quem é que me bate se eu votar numa lista ou noutra".

Quando cheguei ao Liceu, já havia alguma maturidade. Por exemplo, havia debates entre as diversas listas proponentes*****, mas o ênfase do que era a associação de estudantes continuava tão longe das actividades da associação de estudantes que, em determinado ano, pelo menos um colega meu, julgando estar isento de reprovação por faltas desde que faltasse "por motivos de campanha eleitoral", deixou-se "tapar" a todas as disciplinas, e só não reprovou antes das férias da Páscoa porque a Directora de Turma o foi buscar ao recinto do recreio para lho dizer. Quando lhe perguntávamos por que é que ele queria ser parte da associação de estudantes ou o que é que ele pretendia fazer se fosse eleito, ele dizia-nos que não queria saber; que só estava nestas andanças para poder faltar à vontade******.

Ora, sucede, como já mencionei, que lia o Homem Aranha. Infelizmente, a mesma escola que nos encorajava a decidir o nosso voto arbitrariamente e de maneiras parvas, para elegermos uma lista que não queria saber ou uma lista que queria era baldar-se, não nos mandava ler o Homem Aranha. Lá "Os Maias" e "Os Lusíadas" e "Frei Luís de Sousa", tudo muito bem; agora o gajo ágil que rebenta ladrões, manda piadas e não é o Deadpool, népia!

E fazem mal! É que o Homem Aranha teve uma vez um tio que se chamava Ben e fazia arroz num instante, e que antes de morrer lhe disse que "com grande poder vem grande responsabilidade". Olhemos então para a palavra "Democracia": resulta da composição de dois étimos (ou palavras-raíz) gregos (que, de resto, também é onde foi inventada a própria democracia), a saber, demo, e kratos. "Demo", longe de ter a ver com versões muito reduzidas de jogos ou de figuras religiosas judeio-cristãs, significa "povo" e "kratos" significa "poder". Para além disso, se googalizarem "kratos", surge isto:


Quereis convencer-me que, com um burgesso destes, não vem grande responsabilidade? Se ao povo é dado o poder de decidir o destino de uma nação, é-lhe igualmente incumbida a responsabilidade de saber o que raio está a fazer, e não é isso que a escola anda a treinar sucessivas gerações de eleitores para fazerem.

Então surge o Brexit (por exemplo). É claro que o Zé Maria Pincel, que, no 9º ano votou na Lista C, apesar de a miúda de quem ele gostava estar na Lista B (mas o Paulo Rego dava-lhe uma porrada de criar bicho se ele não votasse na lista dele!), e que no 12º ano votou na Lista X porque uma das miúdas vinha identificada nos panfletos como "Bomba", que era a alcunha dela, e ele achou piada, face ao prospecto de votar contra ou a favor de se deixar a União Europeia vai olhar para a cara do Cameron, para o corpo da May e arrepiar-se todo de medo do Farage (ou então por outra ordem qualquer; não estou aqui para o julgar... pelo menos, não por isso), e só depois dos votos estarem todos contados, se de todo, é que vai fazer contas à vida e perceber que votou bem/mal.

Eu até tinha ganas de propor que o voto não fosse o direito de nascença de qualquer cidadão, mas antes um privilégio conseguido à custa de se informar junto de pelo menos dois partidos, mediante sessões de formação gratuitas disponibilizadas pelos próprios partidos, que, afinal, não recebem tão pouco dinheiro do estado para que possam alegar não ter verba, mas imediatamente alguém se ia lembrar de uma maneira simples e eficar de subverter o sistema, e depois eu remendava o sistema nesse ponto específico, uma vez e outra, e outra, e outra, e, antes de dar por ela, estávamos num regime absolutista à lá George Orwell com influências de Starship Troopers e Ayn Rand, mas que era uma democracia porque uma oligarquia não específica tinha o direito ao voto. Portanto, mais vale nem pensarmos muito nisso.

Está bem que isto não impede deshonestidades como a do próprio Nigel Farage, que andou a pintar nos autocarros todos de Londres que o Reino Unido pagava quanto pagava à União Europeia em vez de injectar a mesma quantidade no seu próprio sistema nacional de saúde, e quando o povo quis sair, "revelou" que nunca teve a menor intenção de fazer exactamente o que sugeria nos autocarros e que quem votou nessa premissa fez mal... Ou será que não?

E só para que não fiqueis a julgar que, assim que se chega à universidade, estas imbecilidades desaparecem, recordo-vos que mais que uma vez entrei no DETI, sem saber tratar-se de dia de eleições, e imediatamente descobri uma mesa de voto, munida de "boletins de voto" (que eram vulgares rectângulos de papel colorido, não particularmente bem cortados) para três cargos diferentes, havendo apenas uma única lista candidata aos três cargos. Se achais que encenar eleições para um cargo para o qual só há um candidato não é uma paródia doentia do conceito de democracia, sabei igualmente que:

1. Um voto em branco ou nulo não conta contra a única opção;
2. Mesmo um candidato ou uma lista que concorra sem oposição precisa de um número mínimo de votos para ser eleito. Para além disso, o cargo não pode ficar desocupado. Isto deu azo a que, pelo menos uma vez, uma pessoa se tenha candidatado a determinado cargo sem oposição, mas a votação ocorreu num dia em que não havia muita gente no IEETA (não foi no DETI, mas ao lado...), já que as aulas já tinham acabado e os exames já pouco mais duravam, e que não tinha sido anunciado como tal (para variar). Como resultado, o candidato em questão "teve" que andar a telefonar a toda a gente que conhecia com o direito a votar, a pedir-lhes que viessem extraordinariamente ao campus, alguns já em férias, para lançarem o seu voto, caso contrário... ninguém sabe bem o quê, já que não havia adversário que ganhasse nem o cargo podia ficar vazio... Democracia!

Pax vobiscum atque vale.

* - Antes que alguém se lembre de dizer que não, que a Rússia e o Putin andaram a roubar as passwords do Facebook da Hillary e a viciar os resultados, só para outrem o/a lembrar de quem é que foi o primeiro a afirmar que aceitava, sem contestar, os resultados das eleições, guardemos essas conversas para proeminentes fóruns políticos como sejam o Twitter, o Instagram, o Facebook e o /pol/ e vamos antes discutir assuntos sérios.

** - Aceito sistemas de voto múltiplo, como o voto único transferível, por exemplo. Procurem no Youtube, no canal CGP Grey***, por "Single Transferable Vote".

*** - Claro que recebo uma comissão por cada clique nos vídeos do canal; não se está mesmo a ver que sim...? Ninguém se lembre de ligar o ABP!

**** - Escusam de me dizer agora; continuo a não saber, mas também já não interessa...

***** - Isto passou-se: em determinado ano, um aluno mais velho, membro de uma lista, acusou a lista rival, que se mantinha largamente a mesma desde o ano anterior, em que tinha sido eleita, de não ter cumprido as promessas que tinha feito durante a campanha, omitindo convenientemente o facto de, no ano anterior, ele próprio ter feito parte da associação de estudantes. Esse colega veio a estudar em Aveiro, em ECT.

****** - Se calhar acham que está aqui uma simile muito engraçada de um "proto-deputado", que quer é o tacho na Assembleia da República e não faz a menor ideia sequer do que é que devia estar a fazer, e que é por isto que as escolas fazem mal à democracia. Mas não é só...

2017-03-23

Frozen - Uma crítica

O "Frozen" saiu em 2013 (há já quase 5 anos), é dedicado a uma demografia que não nos inclui especificamente e, excepção feita aos de nós que têm filhotes e filhotas pequeninos, não deiva ser assim muito interessante...

... mas eu acho que é!

Antes que surja o comentário "ainda agora!?" ou "já vens tarde para essa festa", eu não vi o filme só esta semana (mas confesso que o vi mais vezes esta semana que desde 2013 até então) - vi-o, pela primeira vez, só em 2014 ou '15 (já foi para o tarde...), mas desde então que é o meu filme da Disney favorito (também ainda não os vi todos...), e recordo que isso inclui os filmes da Marvel de cerca de 2012 para cá (o que inclui muitas coisas giras!).

Sucede que o "Frozen" tem, no meu entender, uma série de "mensagens" ou "morais da história" que eu acho fantásticas não só pelo seu teor, mas também por irem tão "contra o grão" do que é costume nos filmes da Disney. A saber (e dividido por personaem):

Olaf:
 - Não se levem demasiado a sério. Não vale a pena.
 - Vede sempre o lado positivo. Não é a imagem completa da situação, mas é mais agradável que a alternativa. Não vos esqueceis é de ver o resto também!
 - Tende cuidado com os vossos sonhos. Em menos de um fósforo se tornam pesadelos cor-de-rosa.

Wandering Oaken:
 - Ser simpático não implica, necessariamente, ser um capacho. Sede cordiais com toda a gente que não vos chame de bandido (ou outras coisas na mesma veia), e arremessai com o resto de volta para a intempérie - é mais que o que eles merecem.
 - A intransigência só vos leva até certo ponto, mas, ao menos, leva-vos a algum lado. Podeis sempre mudar então.
 - Peixe marinado em soda cáustica não é boa ideia (isto não decorre directamente do filme, mas é um bom conselho, dê lá por onde der...).

Kristoff:
 - Se estais bem conforme estais, não mudeis por causa de mulher (ou homem) bonita (/o) nenhuma (/nenhum). Nem todas podem ou querem repôr o trenó que vos custarem.
 - Mais vale falar com uma rena que dar em maluco, mas, se a rena vos responder, uma coisa pode não ter invalidado a outra.
 - A família não se escolhe, mas os amigos sim. Não tenhais medo de serdes vós mesmos a ditar quem é ou não é importante para vocês.

Elsa:
 - Se fordes extraordinários, não vos faz bem nenhum fazerdes-vos passar por vulgares.
 - Recalcar medos, sentimentos e ansiedades não os suprime; só adia a sua incidência para quando não fordes capazes de os deter. Lidai com eles hoje. Agora. Já!
 - Se tudo e todos vos fazem da vida um inferno, mandai tudo e todos a determinada parte e recomeçai. Bastando que aprendeis de umas vezes para as outras, correrá sempre melhor que antes.
 - Às vezes, sem querer, magoamos as pessoas de quem mais gostamos, mas, se mostrarmos que estamos realmente arrependidos, elas perdoam-nos. Se não, "let it go"; estais melhores sozinhos.

Anna:
 - O príncipe encantado é uma fraude.
 - Por mais moralmente bons que sejais, os inescrupulosos não se ensaiam nada em explorar a vossa bondade, inocência e ingenuidade. Desconfiai.
 - O amor fraternal é mais interessante que esse ópio do amor romântico.
 - "Bros before hos" também vale para as senhoras. A mesma luz alumia a primeira "moral da história" desta personagem.
 - Mesmo as pessoas que vos são mais próximas têm direito aos seus segredos. Deixai-las guardá-los.

Marshmallow (é o único nome dado (e pelo Olaf) ao "golem" de neve que a Elsa conjura, e tendes de ver a cena "escondida" depois dos créditos para entender):
 - Não interessa o vosso aspecto, função, propósito ou as condições do vosso nascimento: tendes o direito a ser felizes e não permiti a ninguém sequer achar que tem o direito de vos julgar pelo que vos faz feliz (e ainda menos que outrém dite o que é que pode ou não pode fazer-vos felizes).

Bem, agora acho que tenho de criticar o filme pelos seus méritos enquanto filme. Assim sendo:

Esteticamente: a animação está muito boa e a linguagem visual do filme é consistente e agradável. É interessante que os animadores e demais artistas tenham conseguido criar personagens atraentes e mesmo algo sensuais sem as sobre-sexualizar. Contrastai com Ariel ("The Little Mermaid"*, 1989) ou Jasmine ("Aladdin", 1992) que passam a maior parte dos respectivos filmes com os braços, ombros, e umbigo desnudos (o que também não quer dizer que devessem andar de burqua). Se não fossem as cabeças deliberadamente "gigantes" para as tornar mais apelativas às camadas mais jovens, que talvez respondessem menos entusiasmadamente a um estilo gráfico mais realista (recordai o "fracasso" comercial do "Pocahontas", 1995, que, para além de respeitar mais aproximadamente as proporções do corpo humano e ter uma história mais apelativa a mais camadas etárias e ter números musicais aproximadamente igualmente aclamados que "The Lion King", 1994, com o qual foi produzido e lançado mais ou menos em simultâneo, ficou muito aquém deste último, que o superou em toda a linha comercial (i.e., dinheiro auferido em bilheteira, vendas de vídeo doméstico e merchandising)), não teria sequer o argumento de que tanto a Elsa como a Anna têm cinturas mais estreitas que os próprios crânios. No entanto, as mesmas cinturas são perfeitamente proporcionais aos respectivos ombros e ancas (contrastantemente, tanto a Ariel como a maior parte das princesas mais antigas (e.g., Aurora ("Sleeping Beauty", 1959),  a titular Branca de Neve (1937), Ella** ("Cinderella", 1950), Belle ("Beauty and the Beast", 1991) e mesmo a própria Pocahontas) têm cinturas impossivelmente estreitas, mais características da Barbie original (que, caso vos tenhais esquecido, tinha sido modelada com base numa boneca sexual insuflável da era) que de uma mulher). As cores são escolhidas judiciosamente e muito bem empregues.

Elenco: Esta secção é um bocado "injusta", na medida em que, num filme de animação, parte do mérito que, num filme live action, seria atribuído aos actores é relegado para os desenhadores e animadores. Para além disso, quando a responsabilidade de "casar" o som com a imagem é aliviada pela natureza disjunta dos dois, a possibilidade de melhorar o desempenho dos actores através de meios desrelacionados dos mesmos aumenta (e nenhum de nós é suficientemente naïf ao ponto de julgar que a Disney não tiraria partido deste meio). Dito isto, tenho que gabar o actor Josh Gad (Olaf) pela inexorável "boa onda" que confere à sua personagem. Kristen Bell é quem mais "fala" e canta, e faz ambas muito bem, criando uma voz e uma entoação muito expectáveis da sua personagem (assumindo que nenhuma qualidade foi forjada no crucíbulo dos editores de áudio do Tio Walt). Idina Menzel (Elsa), apesar de ter menos "tempo de antena", não fica atrás da precedente em nenhuma das duas capacidades, chegando mesmo a superar (em minha opinião) Bell enquanto cantora (o que, dados o historial e a formação das duas actrizes, só no caso inverso seria surpreendente). Acrescento ainda que, durante as falas em "solfejo rezado", Menzel emprega uma voz muito pouco característica de um desenho animado (pelo que quero dizer mais sóbria e mais realista), mas que resulta muito bem (apropos, e porque, como sabeis, eu gosto de trivialidades, foi essa característica que auferiu à actriz Mila Kunis o papel da voz de Meg na série "Family Guy"). Jonathan Groff (Kristoff), cuja personagem, para além de falar por si mesma, "fala" pela sua rena numa voz algo diferente da sua, faz exactamente o oposto quando "dá voz" ao Sven, e o mesmo também resulta muito bem. Os demais não fazem nada de errado, mas não têm tempo de se "destacar", com excepção de Chris Williams (Oaken), que conta com mais acreditações enquanto escritor, realizador ou animador que enquanto actor (e, mesmo assim, faz um papelão, ainda que pequenino).

Música: Não seria um filme da Disney sem umas cantigas pelo meio. As deste filme contam com a característica invulgar de term sido todas escritas e compostas pelo mesmo casal no mesmo dia. Desta forma, todas têm certas semelhanças melódicas, mas não o suficiente para o filme "soar todo ao mesmo" (esta expressão aprendi-a de um sonorista freelance com quem trabalhei este ano e a quem mando um grande abraço). Liricamente, este processo invulgar não deixa de causar os seus "estragos"; nomeadamente, "door" rima com "any more" não menos de 5 vezes durante todo o filme e, no número mais afamado ("Let It Go"), a letra da ponte é um bocado "duvidosa" (desculpem, mas, por mais inteligente que ache incluir "fractals" e "crystallises" numa música cantada por uma criomante, já que o gelo forma cristais que, frequentemente, exibem geometria fractal, "My power flurries trough the air into the ground / My soul is spiralling in frozen fractals all around / And one thought crystallises like an icy blast"*** não me convence enquanto letra de uma músca; é exposição a mais, no meu entender). Mas a parte instrumental é impecável.

Enredo: Passei metade do post a dizer que é bom; que mais querem!?

Em resumo: Se ainda não o viram, o mais provavel é também já não o verem, mas podia dar-vos para pior.

"Leitura" relacionada:




Mas a grande questão que está ainda por responder é: Por que diabo havia de criticar um filme com quase meia década, do qual já se disse mais que tudo o que havia para dizer? Simplesmente porque, a não ser que se descubra algum buraco recôndito onde ainda não se descobriu o Frozen (o que não é completamente impossível, agora que se fala mais ou menos a sério de colonizar Marte), já mais ninguém deve publicar críticas deste filme, de maneira que talvez seja esta a última crítica do Frozen de sempre. Se assim for, lembrem-se do meu nome (se quiserem). Em todo o caso, também já quase ninguém cá pára para reparar na irrelevância do post e eu gosto é de escrever (não só código, caso não seja evidente).

Falta dizer que certas pessoas envolvidas na produção do filme, nomeadamente Jennifer Lee, que co-escreveu a história e o guião e a actriz Idina Menzel (creio) gabaram o filme como sendo um filme algo "feminista", por ser protagonizado por duas personagens femininas e não cair no estereótipo da princesa que, assim que conquista o príncipe encantado, vive feliz para sempre (mas acho graça a que continue a tradição de substituir o que, num filme para uma audiência mais adulta, facilmente seria, digamos, uma queca, por uma canção. Se achais que estou enganado, procurai e lede muito bem, à luz desta revelação e das suas posições nos respectivos filmes, as letras das músicas "Colours of the Wind" ("Pocahontas"), "A Whole New World" ("Aladdin") e "Can You Feel The Love Tonight" ("The Lion King")). Nada contra, mas estou convencido que, por cinco escudos e um Toblerone, a Anita Sarkeesian fazia um vídeo de 15 minutos no Youtube a dizer que o filme é um produto da patriarquia misógina guiada pelo olhar masculino que pretende objectificar e oprimir todas as mulheres do mundo para sempre e é pior que literalmente o Hitler. Por outro lado, só o há de fazer em 2127, quando já tiver falecido de causas naturais, e ninguém desconfiará de assassinato para impedir que essa cabra miserável me roube a glória de ter sido o autor da última crítica de sempre do Frozen... Ahem, quinta emenda, por favor...

Pronto, agora já só falta mesmo o

Pax vobiscum atque vale.





... e os asteriscos:

* Sim, é dizer o mesmo que "A Pequena Sereia". Sim, é um bocado pretensioso usar os título em inglês no meio de um texto em português quando todos os envolvidos sabem perfeitamente quais são os seus equivalentes. Mas eu tenho um fetiche em particular por títulos originais. Deal with it.

** Sim, o nome da protagonista em todo o filme é dado como "Cinderella", mas a história só se chama "Cinderella" porque, nos países anglófonos, "cinder" refere-se às farripinhas ardidas que as fagulhas deixam e que recobrem quem se aquece junto de um borralho (e agora sabeis, se não sabieis antes, como de "Cinderella" chegamos a "Gata Borralheira") e que, no período em que se passa a história, eram uma "marca" de pobreza ou de servidão. Justaposto com o nome próprio "Ella", chegamos a "Cinderella", cujo título original, em italiano, é "Cenerentola", que resulta da justaposição de "cenere" com o diminutivo "Tola" da personagem principal, "Zezolla". Por isso, escolho usar o nome "Ella" para me referir à personagem e "Cinderella" para me referir ao filme ou ao conto. Deal with it.

*** Se voz faz impressão não dizer que ideia é que cristaliza como uma rajada gélida ou se simplesmente vos incomoda que não acabe a rima, "I'm never going back, the past is in the past", mas não tenho nada contra este verso.

2017-03-13

Foda-se a bófia!

Os meus estimados colegas e amigos, por ventura de serem pessoas que (e disto certifiquei-me pessoalmente junto de cada um de vós ao longo de vários anos) não são suficientemente idiotas para serem agentes da PSP, já perceberam, pelo vernáculo, que não estou no meu estado de espírito "padrão".

Talvez saibam que estou à procura de emprego. Acontece. O IEFP (que, adianto, omite, do seu título, a parte "de quem cá trabalha" de entre a segunda e tercera inicial da sigla pelo qual o conhecemos*) confere-me a benesse de me ajudar com um subsídio mensal. Longe de me querer queixar da generosidade do IEFP, sucede igualmente que o mesmo subsídio cobre pouco mais que a minha renda de casa, chegando, mais ou menos, para as despesas fixas necessárias à subsistência (falo de água, gás, electricidade e telecomunicações, que, ainda que possais achar que é um luxo, é igualmente indispensável à procura de trabalho, sobretudo na nossa época e na nossa área funcional). Assim sendo, muito grato pela ajuda, conto os meus tostões e estico o dinheiro o mais que posso enquanto procuro uma situação melhor.

Acontece igualmente que a benesse que me vai permitindo subsistir, apesar das dificuldades, está sujeita a abuso por indivíduos que, inescrupulosamente, se deixam perdurar nesta situação e mesmo que procuram alegar incumprimento por parte do IEFP, revindicando não ter, em determinada ocasião, recebido o que o IEFP, humanamente e quase por caridade, lhes atribui, pelo que se protege, emitindo mensalmente um cheque, que é mais difícil de contestar, omitir ou suprimir que uma transferência bancária, o que me obriga** a depositar o cheque de cada vez que o recebo. Mas não é disso que me queixo.

Ora hoje fui depositar o cheque deste mês. Procurei lugar para estacionar perto da balcão do meu banco, o que não é fácil, não só porque o mesmo está em pleno coração da chamada "zona pedonal", onde os automóveis perdem prioridade perante qualquer peão sob qualquer circunstância e onde há ainda menos sítio para estacionar que no resto desta mal-parida terra onde NUNCA HÁ ONDE DEIXAR A MERDA DO CARRO!!! Reparei num automobilista que, tendo estacionado antes, ocupou o seu veículo e partiu, deixando vago o lugar onde estava. Naturalmente, ocupei o mesmo espaço.

Celeremente resolvi os meus assuntos no banco (depositar um cheque não demora sequer 20 minutos) e quis seguir a minha vida, quando reparei que tinha sido multado. Caso nunca tenhais sido multados, sabei que a multa não diz rigorosamente nada que não se já saiba: diz a marca, modelo, cor e matrícula do veículo (que, se o veículo vos pertence, já deveis saber), a data da infração e um rabisco que passa pela rubrica do agente que autuou o veículo, desprovido de qualquer obrigação de ser legível. Saliento que o impresso que vos é deixado no pára-brisas tem muito mais lacunas, mas, aparentemente, não existe qualquer obrigação por parte do agente de as preencher.

Por sorte, encontrei uma agente da PSP que revelou uma atitude extremamente blasé perante a multa, como se as obrigações legais "expostas" (lacónicamente como estão, não acedo a considerá-las devidamente expostas) no verso da notificação não existissem. Se se tivesse tratado de uma pessoa honesta (como seria de esperar de uma agente da polícia), ter-me-ia dito ter sido ela quem me autuou e explicado as condições da infracção (aproveito para a explicar, que agora me apercebo de que ainda não o fiz: estacionei em cima do passeio. Em minha defesa, o passeio não apresenta diferença de nível em relação à estrada, nem nenhum padrão que não se encontre fora das estradas ou zonas de estacionamento (faço toda a questão de insistir nesta questão, uma vez que, logo do outro lado da estrada, havia um estacionamento em espinha cujo piso é exactamente igual) nem sinalização que o diferencie do demais pavimento. Ademais, certifiquei-me de que não só não havia mais sinalização da proibição de parar ou estacionar como também de que o carro não impedia a circulação de outras viaturas nem de velocípedes nem de peões, mesmo os de mobilidade reduzida, nem impedia o acesso à via ou a vias de acesso ou caminhos privados nem a abertura de portas, janelas, portões ou portinholas de outros veículos; em suma, NÃO ESTAVA A ESTORVAR NINGUÉM), mas não; mandou-me ou ir à esquadra ou "deixar que me chegasse a casa". Fui, portanto, à esquadra.

Na esquadra fui atendido por um agente a quem expliquei que, por não ter incomodado ninguém, necessitando apenas de depositar o meu único e magro rendimento, tinha sido deprivado de €30. Para que conheceis o contexto, há já quase dois anos que vou ao Continente mais ou menos uma vez por semana, e que semana em que lá deixe sequer €30 é semana em que ou perdi a cabeça e me deixei enamorar por qualquer luxo superfluo ou uma desgraça me obrigou a substituir qualquer coisa cara. Este agente só depois de muita insistência concordou em informar-me do processo de contestar uma multa que se acha injusta. No entanto, apesar da sua boa vontade, o agente empregou todos os polissílabos do dicionário de sinónimos para dizer rigorosamente NADA, pois, como sabeis, não se pode dizer o que não se sabe. "Envie uma carta" e "explique isso tudo muito bem" é a parte que qualquer idiota lobotomizado com um picador de gelo rombo por um macaco cego cujas patas brutas e sujas tremam já sabe; a quem enviar a carta, como a redigir, e quais as informações indispensáveis à mesma são a parte que eu quero saber e que o agente que me atendeu não foi capaz de me dizer. O que me disse, e não foi só uma vez de passagem, foi "vá falar com a Comandante", que era a agente que me tinha autuado. Assim fiz.

Aparte, deixai-me contar-vos uma outra história, a bem do contexto: certo dia, em Viseu, seguia, na capacidade de passageiro, num veículo que, por lapso, trazia o farol de nevoeiro traseiro ligado indevidamente. O condutor do mesmo foi mandado parar pelos agentes da autoridade, e terá a sua própria história para contar dos demais eventos, mas eu, que não tinha feito rigorosamente mais nada que sentar-me no carro de um amigo meu e imediatamente oferecer o meu cartão de cidadão perante a frase "tem algum documento que o identifique", fui tratado como um escroque, ofuscado, desnecessariamente, numa tentativa de intimidação, com lanternas, repuxado para fora do meu lugar e ameaçado de que seria revistado antes sequer de alguma sugestão de que tivesse, em minha posse, "alguma coisa que o comprometa" (sic), que, claramente, não tinha. Ou seja, se viveis na doce ilusão de que "o polícia é um amigo" que só serve para nos proteger e não faz mal nenhum a pessoas de bem e que as histórias de polícias a bater em pessoas que "dindu nuffin" são relatos exagerados de criminosos que se querem fazer passar por inocentes e coisas que acontecem "lá longe", desenganai-vos; há, entre as fileiras da nossa PSP, proverbiais maçãs podres.

Armado com esta memória, fiquei extremamente feliz de ver que a comandante não trazia um casse-tête, como era hábito há uns 20 anos, porque, da maneira como me tratou, tive sinceramente medo que me quisesse bater, assim que lhe disse que um colega dela me tinha recomendado que falasse com ela. Exigiu saber quem tinha sido e recusou-se a falar comigo até ter tentado, de duas maneiras diferentes, falar com o agente em questão, que, talvez por medo que a comandante lhe batesse por telefone (provavelmente, confundiu-a com o Chuck Norris. Deve ter sido por causa da barba), não atendeu. E, tão preocupada que estava em tratar-me mal, recusou-se a revelar um iota que fosse de informação respeitante ao processo de contestar a multa. Igualmente se recusou a ouvir qualquer argumento mitigante da minha culpa. Posso, em toda a honestidade, dizer que não fui grosseiro, nem mal-criado, nem agressivo, nem insistente, sobretudo porque, quando percebi que, na PSP, a patente é inversamente proporcional a qualquer medida de virtude, fui-me embora antes que ela abaixasse as calças e revelasse um casse-tête fora do padrão da PSP com o qual me bater, em conformidade com a atitude que tinha vindo a revelar.

Enquanto voltava para a esqudra, onde tinha estacionado (desta vez, em situação tal que não fui autuado), um outro agente da PSP, que reparou no meu estado de agitação (reparem que agora não sei se vou ter que comer daqui a 15 dias; €30 é dinheiro para mim, foda-se!) e abordou-me. Este agente da PSP, conforme evidenciado pela falta de divisas no seu uniforme (e, consequentemente, pela sua baixa patente), era um homem correcto, que procurou reconfortar-me e dizer-me, em termos simples e de acordo com o seu melhor conhecimento, como contestar a multa, o que só serviu para para introduzir mais possibilidades na equação, já que nada do que ele me disse se coaduna com o que o colega da esquadra me tinha dito. E isto não é uma acusação contra qualquer um dos dois agentes; é sintomático da balbúrdia que é o pomposamente chamado "establecimento da autoridade", em que a mão direita não sabe o que anda a esquerda a fazer.

Esta é a parte em que digo alguma coisa como "o que mais me fode é que todos os dias vejo filhos-da-puta mal estacionados e ninguém os multa" ou "e os cabrões que todos os dias deixam o carro no estacionamento do meu prédio a ocupar dois lugares?" ou mesmo "então, o gajo antes de mim, nada; agora, eu...", mas não; o que me fode é:

1. Ter sido tratado como um criminoso pela Comandante;
2. Que ninguém me saiba dizer, em termos claros, o que é que eu tenho O DIREITO a fazer;
3. Os pontos da carta; OK, pronto; as contra-ordenações ligeiras não acarretam perda de pontos nem inibição de atribuição de pontos em Junho de 2019. Menos uma irritação. Huzzah!
4. €30 É DINHEIRO, FODA-SE!!!

Agora que me aproximo do fim da minha intrevenção, recordo-me que pode haver entre vós, leitores, quem não esteja contemplado pelo primeiro parágrafo desta posta. Entre esses, pode surgir quem tenha, nesta altura, vontade de comentar, chamando-me "bitch", "whining bitch" e variações. Apelo, portanto, à coragem e decência de tais dissidentes que, contra confirmação da ausência das vossas gónadas, tanto em sentido literal como no sentido em que, metaforicamente, estas se traduzem no vosso valor enquanto indivíduos, por oposição a vis e vulgares pilhas de esterco, que guardeis tais comentários até estardes em posição de mos entregar em pessoa, cara a cara, suficientemente perto de mim para me apertardes a mão, conforme soi aos membros educados de uma sociedade moderna. Se, por outro lado, não for essa a vossa intenção ou, mais simplesmente, se fordes, de facto, dos meus estimados colegas e amigos, fica este parágrafo sem efeito.

É esta a parte em que digo "pax vobiscum atque vale", mas, hoje em particular, escolho uma mensagem mais recente, vinda de outras terras, que considero mais relevante:

Fuck tha police!*** -- N.W.A.

* quero, por isto, implicar que se trata do "Instituto do Emprego de quem cá trabalha e da Formação Profissional", porque não conheço, que saiba, uma única alma que possa dizer que deve o seu emprego ao IEFP sem lá trabalhar.

** de acordo; podia pedir ao IEFP que me fizesse a transferência ao invés de enviar um cheque. Está na minha lista de afazeres. Escusais de mo recordar, mas obrigado na mesma.

*** sabeis que, geralmente, não tenho nenhuma má vontade aos agentes da autoridade ou ao estabelecimento da mesma, mas a caracerística inalienável da Polícia é zelar pelo bem-estar dos cidadãos, e privar-me, no meu momento de dificuldade, no valor de mais de uma semana de víveres não é em prol do meu bem estar. Desta forma, foda-se esta bófia que só serve para nos foder.

2017-02-26

Parte I - Em prol da diversidade e do multiculturalismo...

... quero hoje falar de uma questão, digamos, escandinava, ou, mais exactamente, sueca.

Estive ontem numa soirée (então; também posso ser todo finaço, de vez em quando, ou, pelo menos, ter veleidades disso) que, a páginas tantas, como me lembro de ser costume nas soirées que os meus avós ocasionalmente davam (e às quais ocasionalmente iam comigo à pendura), deu numas jogadas de Sueca. Às páginas tantas, dois jogos consecutivos acabaram em empate. Inevitavelmente, surgiu a questão: "Qual é a probabilidade de isto acontecer?"

Eu acho que é uma boa pergunta, mas não sei se serei capaz de responder. Portanto, vamos pensar todos juntos a ver se conseguimos (primeiro) destilar o raciocínio certo para descobrir a resposta ao problema, (depois) descobrir a maneira mais fácil de fazer os cálculos e (finalmente) fazer as contas. Afinal, a maior parte de nós somos engenheiros (e é engenheiros a sério; não é "engenheiro" como certos e determinados engenheiros cujo grau lhes foi atribuído a um Domingo, por exemplo); devíamos ser capazes de resolver isto!

Comecemos por calcular a probabilidade de um único jogo empatar. Ora, qualquer pontuação é função da distribuição das cartas auferidas nas 10 vazas de cada jogo pelas duas equipas. Uma vez que as cartas só podem ser auferidas no contexto das vazas, e que cada vaza tem exactamente 4 cartas, muitas distribuições são imediatamente eliminadas, nomeadamente, todas as distribuições que não atribuam um múltiplo de quatro cartas a cada equipa. Dado que a soma das cartas arrecadadas pelas duas equipas é sempre igual a 40, há um número finito de distribuições possíveis:

(pensemos primeiro em termos de vazas, para facilitar)

 - Pode uma equipa auferir todas as vazas, caso em que a distribuição é (em vazas) 10 - 0.
 - Pode a mesma equipa auferir nenhuma vaza, caso em que a distribuição é 0 - 10.
 - E, naturalmente, há todos os casos possíveis pelo meio, ou seja, todos os "passos" que o 10 - 0 tem que dar para se "transformar" no 0 - 10, que são, evidentemente, 9.

Há, portanto, 11 distribuições possíveis das vazas. Resta saber a quantas distribuições possíveis das cartas isto corresponde (é aqui, julgo eu, que as coisas começam a complicar-se). Só de uma maneira é que é possível distribuir cada um dos os casos extremos - essa é a parte fácil. O caso em que uma equipa arrecada uma única vaza corresponde a "combinações de 40 tomados 4 a 4" (digam lá que não já tinham saudades disto...!) maneiras de distribuir as cartas. O mesmo número traduz o caso em que a mesma equipa ganha todas excepto uma das vazas. É aqui que surge uma certa semelhança com a quadragésima primeira linha do triângulo de Pascal, mas com uns quantos elementos removidos (nomeadamente, todas a combinações de 40 tomados k a k tais que k não seja um múltiplo de 4).

Antes de começar a fazer contas à maluca para descobrir quantas maneiras existem de distribuir as cartas pelas equipas, surge-me a questão: haverá vazas impossíveis? E combinações de vazas que, não implicando repetição de cartas, não podem, de acordo com as regras, suceder? Como não sou suficientemente versado em Sueca para responder, é uma (a primeira) questão que vos convido a responder (e, como veteranos do ensino superior que somos, já sabemos que este convite pede a demonstração do raciocínio por detrás da nossa resposta).

Seguidamente, é preciso saber de quantas maneiras é que é possível fazer 60 pontos. Lembro-me, na nossa louca juventude, de, durante a cadeira de Desenvolvimento e Análise de Algoritmos (era de opção no 5º ano de ECT, e mudou de nome aquando do processo de Bolonha, mas não me lembro para o quê, e sim, nós chamávamos a disciplina de "duh!") de falarmos de problemas semelhantes, chamados de "Binary Knapsack Problem" ou "0-1 Knapsack (ou Rucksack) Problem". Dito em linhas gerais, sabendo que cada um de n itens tem determinado peso e determinado valor, de que maneira devemos incluir (na metafórica mochila) 0 ou 1 cópia de cada item de maneira a carregar o maior valor possível sem exceder determinado peso total (a propósito, isso é exactamente o tipo de perícia que facilmente se pode desenvolver quase inconscientemente com dedicação suficiente aos jogos da Bethesda, pelo menos do Oblivion para cá, em que a frase "You are over-encumbered and cannot move" se torna uma irritação frequente)? O nosso problema é semelhante, na medida em que existe, no máximo, uma cópia de cada carta que uma equipa pode auferir, cada carta tem um peso (1) e um valor (0, 2, 3, 4, 10 ou 11, consoante se trate de um 2 - 6, uma Dama, um Valete, um Rei, uma Manilha (/Bisca/Sete/Seta e mais todas as maneiras de que a malta se refere ao 7) ou um Às) conhecidos à partida. É, igualmente, diferente na medida em que, ao invés de maximizar o valor total da escolha, pretendemos arrecadar exactamente 60 pontos. Convido-vos (segunda vez) a adaptar a solução do Knapsack Problem para o nosso caso particular.

Falhando isso, resolva-se o problema extensionalmente: não é difícil imaginar um grupo de cartas que some 60 pontos (quatro Ases, uma Manilha, um Rei e uma Dama, por exemplo). Podendo acertar os números com "palha", todas as maneiras de fazer 60 pontos devem ser viáveis (excepção eventual feita às que coincidam com distribuições que, em resposta à primeira pergunta que vos propus, sejam impossíveis, caso as haja). Ora, dada a reduzida dimensão do nosso problema, não é difícil, por exemplo, escrever um pequeno programa que descobre todas as distribuições possíveis das cartas de maneira a que o jogo resulte empatado, mas preferia não partir para a solução da força bruta até ter a certeza de que não existe uma solução analítica mais elegante (porque a questão é essencialmente académica; no lugar de trabalho, dada a dimensão do problema, em menos tempo que já gastei a escrever esta muralha de texto, tinha feito e corrido o malvado programa).

Dado que temos, depois de somar 11 combinações de 40 tomados k a k, com k pertencente a [0, 40], sabendo que k é um múltiplo de 4, o número de casos possíveis, e, depois de (no melhor caso) usarmos a nossa brilhante adaptação do problema da mochila ou (no pior caso, mas, desta vez, dito com a voz nasalada do Professor Madeira, para quem aproveito para mandar um grande abraço) de contarmos as linhas que o nosso programa de força bruta imprimir no écran, teremos o número de casos favoráveis, e sabemos que a probabilidade de empatar é a razão entre os dois.

Uma vez que o resultado de cada jogo é um acontecimento independente do resultado dos jogos que o precedem ou que o sucedem, a probabilidade de empatar dois jogos consecutivos é o produto da probabilidade de empatar um único jogo consigo mesma, ou seja, coloquialmente, "ao quadrado".

Espero ter despertado em vós saudades suficientes das nossas aulas de matemática, combinatória, probabilidade e estatística (disse ele, de cara séria, acreditando piamente que tendes saudades desses tempos) o suficiente para me quererdes ajudar. Vamos meter números nestas ideias! Até lá...

... Pax vobiscum atque vale.

2017-02-15

Quero, posso e faço!

Isto vem um pouco na veia de um sentimento que o Pedro exprimiu aqui há uns posts atrás...

Quando éramos pequeninos, havia uma série de coisas que só podíamos fazer "quando fôssemos grandes": beber álcool, ficar acordado até tarde, ver filmes para crescidos, etc..

Depois crescemos (um bocado), e passou a haver coisas que só podíamos fazer quando certa condição se verificasse: podíamos sair à noite, mas só quando tivéssemos dinheiro; podíamos fazer uma lanzada, mas só quando não tivéssemos exames ou trabalhos iminentes; podíamos ir de férias para onde bem nos aprouvesse, à hora que quiséssemos, mas só quando já tivéssemos carro próprio.

Depois crescemos outro bocado e o "quando" começou a ficar menos nítido: quando tiver tempo; quando tiver paciência, quando receber, quando vencer o depósito a prazo, quando tiver acabado de pagar a hipoteca.

Finalmente, surge o "quando" mais malvado de todos: o "um dia destes".

Concretamente: desde que vim morar para S. João, continuando a ir frequentemente a Viseu, sempre que faço a viagem de volta, dá-me sempre ganas de ir a Aveiro. Primeiro na saída para o IC2 em direcção ao Porto e Albergaria-a-Velha (fico sempre com vontade de sair, só para ver se a meretriz que todas as semanas via junto da última estação de combustível antes de voltar para a A25 ainda lá está...), e depois logo antes da saída para a A1, que é onde deixo a A25 (e, a propósito de nada, deixo ficar que, saíndo onde costumo sair, percorro quase 10 Km na A1, pelo que pago €0.85, mas, se andar apenas mais 2 Km, passo logo a pagar €2.05 - justo...).

Pois este domingo deu-me o "vaipe" e fui mesmo até Aveiro. Fui tomar café à Doce Aveiro, onde ainda fui reconhecido (apesar de já lá não ir há 7 anos), passeei no Glicínias (que está largamente na mesma), passei diante de onde ainda me lembrava que colegas e amigos tivessem morado e, claro está, calcorreei o Campus de Santiago, desde o Complexo Pedagógico até à nova Reitoria, depois passei no glorioso Departamento de Electrónica, Telecomunicações e Informática, diante do bar do Departamento de Biologia, seguindo em direcção ao Departamento de Línguas e Culturas e à Velha Reitoria.

Sabeis que mais? Foi giro. Recomendo. Mas, sobretudo, recomendo abolir o "um dia destes". Vão já!

Pax vobiscum atque vale.

2017-02-09

Bitcoins do pé para a mão

Precisava de 0.033 bitcoins... alguém me sabe dizer como é que as adquiro (a troco de alguma coisa como €36.00) sem ter que andar a revelar mais que o que me apetece a um site qualquer?

2016-12-27

Os gelados de Richard Hammond

Ora bem, antes de mais, e com algum atraso (porque mais ninguém se maçou com fazê-lo), DJIMGOLBELS, CRL, DJIMGOLBELS!

Seguidamente, chamo a vossa atenção para este artigo.

TL;DR, o Richard Hammond, famosamente outrora do Top Gear, e famosamente agora do Grand Tour, fez uma graçola acerca de homens que comem gelados serem homossexuais e certos indivíduos ficaram ofendidos.

Antes de partirmos para uma análise cuidada de uma piada parva (no bom sentido) e de uma reacção exageradamente parva (no mau sentido), estabeleçamos que, ainda que o Hamster ache que um homem adulto a chupar um Magnum, um Mini-Milk ou mesmo, concebivelmente (ou talvez especialmente) um Calippo dê um certo ar de gay*, nenhuma pessoa razoável acreditaria que o Hamster ache que um homem adulto a chupar um Magnum, um Mini-Milk ou mesmo, concebivelmente (ou talvez especialmente) um Calippo seja necessariamente gay*.

Ora, para que não restem dúvidas, este vosso antigo colega e amigo deu-se ao trabalho de transcrever toda a conversa relativa à piadola:

(não é que não me tenha lembrado de traduzir a conversa, mas há aqui alguém que precise disso?)

Jeremy Clarkson: Bit more conversation for you...
Richard Hammond: Oh, good!
JC: I think, with the exception of Rolls-Royce, Volvo now make the best car interiors of anybody. (a audiência reage) They're very, very good.
James May: Weirdly, I don't like to, but I agree with you, because I went in the new S90 the other day and the interior is superb.
JC: We've got a picture of it here.
JM: Yes, that one!
JC: The thing about it is, they use pale colours. They've got pale coloured seats, pale coloured carpets, pale wood and that makes it feel light and airy and spacious. The only problem is that in one of those you couldn't enjoy a chocolate Magnum ice cream.
(a audiência ri-se)
RH: It's alright; I don't eat ice cream. Something to do with being straight.
(a audiência ri-se clamorosamente e aplaude)
JC: Why are you applauding it? What do you mean? Are you saying everyone who like ice... so you're saying...
RH: Well, you know, ice cream is a bit... you know...
JC: You're saying all children are (entredentes) homosexual.
RH: No. But... There's nothing wrong with it, but a grown man, eating an ice cream it's... you know, it's a bit... it's that way (gesticula para a esquerda) rather than that way (gesticula para a direita). It's just...
JC: (para a câmara) Welcome to the inside of Richard Hammond's head.
RH: I'm right! I can't believe you can't see that. It's easy; it's in front of you.
JC: You could enjoy a '99**** in there.
RH: You mean a 69.
(a audiência ri-se)
JC: No, 99. But it couldn't have the chocolate thingy. (gesticula, emulando, com o dedo indicador, um 99 cent flake espetado obliquamente na bola de gelado)
RH: My case rests!
(a audiência ri-se)
JC: No, the chocolate thingy...! (gesticula como antes, mas mais enfaticamente)
JM: But if you had a Volvo, if you had that Volvo, you could have a white Magnum....
JC: True.
JM: ... or a Milky Bar.
JC: Yeah, but not a Double Decker.
JM: Well, a flake is worse...
JC: No, Double Decker's worse.

Depois seguem para uma discussão acerca de qual chocolate faz mais migalhas.

Agora quero chamar a vossa atenção para dois parágrafos do artigo para o qual linkei (linquei? Lin Kuei?):

Primeiro - "In front of a live audience, Clarkson pointed to an image of the interior of a Rolls Royce, saying: “The only problem is that in one of those, you couldn’t enjoy a chocolate Magnum ice-cream.”"

- Era um Volvo, sua imbecil (Elle Hunt, autora do artigo)! Nem um Volvo de um Rolls-Royce distingues e tens a audácia de querer criticar seja que iota for de um programa de automóveis?!

Segundo - "A spokesman for LGBT equality charity Stonewall said Hammond’s choice of words were not only ridiculous, but “chosen purposefully to mock and belittle”."

- OK, tendes todas as palavras que o coitado do Hamster disse acerca do assunto escritas ali acima. Agora dizei-me quais é que "gozam e fazem pouco" dos homossexuais? Seja lá quem for que financia este cobarde miserável, que nem sequer se dá ao trabalho de fazer por que o seu nome acompanhe as suas palavras como convém a qualquer pessoa que fale com a convicção de manifestar os valores que acredita serem correctos, sabe ao menos para onde vai o dinheiro? É que se me dissessem que eu andei a pagar os almoços e os SMS deste escroque a quem não posso sequer dirigir devidamente os insultos que merece ia haver uma série de rabinhos muito vermelhinhos entre eu e ele...

Porra, qualquer dia, se mandar uma topada com o dedo grande do pé na mesa de café, nem "foda-se" posso dizer sem ser multado... Foda-se!

Pax vobiscum atque DEUS VULT!!!

* = Aqui uso o termo "gay" desconotadamente, ou seja, isento de qualquer deterimento ou pejoratividade, não vá algum paneleiro** ofender-se.
** = Aqui uso o termo "paneleiro" independentemente da orientação sexual do sujeito. Fazendo minhas das palavras do cómico e actor*** Louis C.K. (traduzidas por mim), eu nunca chamaria um homem homossexual de "paneleiro", a não ser que ele se estivesse a armar em paneleiro.
*** = Aqui uso o termo "actor" na sua gloriosa "antiga" ortografia. Se algum paneleiro** se ofender com isso, TANTO MELHOR!!!
**** = '99 refere-se a um "99 cent flake", uma folha fina e quebradiça de chocolate enrolada na forma de um cilindro que se esboroa em lascas e migalhas com facilidade, que também é o nome de um gelado servido em cone com um 99 cent flake espetado. [citation needed]

2016-12-08

Primeira Lei da Robotica

Uma máquina não pode ferir um ser humano, ou, or inação, permitir que nehum ser humano sofra algum mal

Ninguém se lembrou de traduzir isto para russo pois não?

https://youtu.be/69Udbw_wVN8

Há cada vez mais videos públicos. Maquinas, desde IAs até às controladas à distáncia, com i intuito de lutar, matar, destruir. Alguem por favor traduza as leis da robotica em todas as linguas.

2016-07-03

Mesa de Lemos - Uma Crítica

Antes que os meus estimados colegas e amigos se interroguem "mas que diabo de filme ou jogo vem a ser esta "Mesa de Lemos" de que nunca ouvi falar?", sabei que se trata de um restaurante perto de Silgueiros. Esclarecido isto, segue-se, à maneira da miríade de sites de críticas de lojas, serviços e produtos variados, um título:

O lugar mais pretencioso do mundo:

Em poucas palavras, é um lugar que se orgulha de ser deliberadamente obtuso, um sítio que extrai um prazer perverso em obrigar a que tudo seja feito da maneira mais difícil. A maior parte de vós conheci num ou noutro curso de engenharia, onde o mantra reflecte que a solução mais simples é, geralmente, preferível; apresento-vos, portanto, a antítese do nosso credo:

É esta a parte onde, geralmente, eu postaria uma fotografia da fachada do restaurante. Infelizmente, não tenho nenhuma, e eis por quê: Sabendo que teria um desastre desta proporção para documentar, teria fotografado o edifício ao entrar, às 8 da noite do segundo dia de Julho no hemisfério norte, quando a luz se proporcionaria a tal tarefa. Infelizmente, quando de lá saí, às 11 da noite, tendo comido três pratos, já não havia luz de que falar. Tereis, portanto, que vos contentar com a minha descrição.

Imaginai-vos numa estrada secundária de campo, onde as tabuletas são escassas e dispersas, e ocasionalmente pejadas de palavras bárbaras que podem ou não se relacionar com o destino que procurais. Tomara eu ter-me achado nessa posição enquanto navegava precariamente os caminhos de terra e pedra que serpenteiam por entre as vinhas da Quinta de Lemos. Eis então que encontro um edifício! É lá que me dizem que não é aquele edifício que eu procuro; esse está enterrado três vezes mais profundamente nas vinhas (em mais que um sentido).

Findas mais umas voltas sinuosas entre sinalização escassa e pavimento quase inexistente, encontramos o restaurante: uma longa fachada de vidro e betão escavada na própria rocha da colina.

Permiti-me o interlúdio de uma crítica que mais se assemelha a uma censura para reconhecer que, sim senhor, estava bonito, de uma maneira minimalista e rústica, quase grosseira, que deixa desnudos o betão e a pedra.

Torna-se agora necessário estacionar o carro. Enquanto a vasta multitude de restaurantes prenuncia a própria porta com amplos estacionamentos, de onde não surge maior inconveniente, à saída do carro, que atravessar uma superfície plana e asfaltada, a Mesa de Lemos opina que ainda não percorrestes suficientes contracurvas por maus caminhos e manda-vos numa demanda para deixardes as vossas viaturas não diante do restaurante, nem sequer ao lado ou por detrás do restaurante, mas antes sobre o mesmo. Uma vez desembaraçados da responsabilidade de abandonardes o vosso veículo apenas onde não cause transtorno a outros automobilistas, espera-vos um caminho íngreme, de terra pejada de pedras crudes e bojudas até à porta do restaurante. Caso a inclinação vos desargade, podeis igualmente percorrer o caminho por onde lá chegastes, que, se é menos íngreme, é igualmente mais longo, e pejado mas mesmas pedras, acrescidas agora de outros condutores que, tal como vós, só querem estacionar. Caso tenhais tido a ideia de levar saltos altos, meus caros, estais na mata sem cachorro (desta dificuldade não falo empiricamente, mas a minha mãe poder-vos-ia ter contado, se não estivesse concentrada em, mesmo empoleirada no meu ombro, não cair).

Concluída a gincana de chegardes à porta, recebe-vos a Maîtresse D'. Podereis, agora, interpor que ela não parece ter tido dificuldade em chegar ao restaurante, apesar do caminho ingrato, mas deixai-me dizer-vos duas coisas:

1. Havia espaço para um único e solitário carro num recanto macadamizado, diante de uma porta para empregados.
2. A Maîtresse, não obstante a elegância do seu traje e do seu porte, usava sapatilhas. Sapatilhas desportivas. Num restaurante gourmet.

Queria agora citar uma passagem de um livro que toda a minha vida eu achei muito bonito:

"hipocrisia - substantivo feminino; devoção fingida."

Apesar do sorriso pronto, a Maîtresse não nos leva imediatamente à nossa mesa: como tínhamos, originalmente, feito reserva para três pessoas (um dos comensais não se pôde juntar a nós), mandou-nos esperar, e não foram os escassos segundos que demora afastar uma cadeira de uma mesa (antes que vos lembreis de argumentar que seria igualmente necessário re-organizar os pratos, talheres, copos e guardanapos, devo dizer-vos que nenhum desses objectos está na mesa quando sois conduzidos à mesma).

Finda a espera, fomos trazidos à nossa mesa. Ainda que não nos chocasse vê-la inteiramente despida, senão pela toalha e um castiçal, esperávamos ver ementas, mas tal estava reservado para mais tarde. Primeiro, mas não imediatamente, segue-se o que é chamado de "um ritual" - e esta parte não é, tanto quanto eu sei, opcional. O ritual consiste em serdes presenteados com um bloco de granito, sobre o qual repousa um toalhete húmido com que "lavar" as mãos (e, até aqui, tudo bem), uma taça com gravilha e algumas folhas sortidas (e, em defesa da mesma, era uma taça dodecaédrica bem bonita, que eu teria todo o gosto em ter em minha casa como centro de mesa) e dois copos de água fresquinha. Segue-se um discurso fátuo acerca da água, a qual é classificada como um "elemento" - senhores, sabemos hoje que o Platão substimou em muito tanto o número como a natureza do que designou por "elementos". Então, de um jarro, entorna água sobre a gravilha da taça, revindicando que tal simula adequadamente uma cascata, e convída-nos a desfrutar da água da Serra da Estrela que nos serviu - porventura porque não se apercebe que a mesma está comercialmente disponível numa multitude de superfícies e de que quem se dá ao luxo de comer em restaurantes gourmet pode, igualmente, mimar-se em sua casa com um método de refrigerar líquidos, outras bebidas, géneros alimentares e mesmo qualquer objcto que caiba no malvado frigorífico - eis a exclusividade dos restaurantes finos. Estou tentado a elogiar a escolha do dodecaedro como forma da taça, uma vez que o seu dual, o icosaedro, fora associado por Platão à água, mas recordo-me de outros patronos brindados com o mesmo ritual, com uma taça cúbica. Ainda que nunca dois "rituais" tenham decorrido em simultâneo. Homens, podíeis ter usado a MESMA TAÇA!!!

(tem calma, tubarão; tu não te desgraçes...)

OK, continuando... Ressequidos do calor da tarde e do sol que vos banhou no caminho até ao restaurante, é este o momento de apreciardes a água fresquinha, mas apenas até que vo-la tirem, ainda antes de verdes o menu. Quando, finalmente, vos trazem o menu, espera-vos um enigma: Da capa de cartolina dobrada ao meio caem quatro tiras de papel que, visto à transparência, têm a filigrana "conqueror". Não deslindo que relação tem a palavra com a Mesa de Lemos. Cada uma das três primieras tiras lista um número de pratos (a primeira três, a segunda cinco e a terceira sete), seguidos de um preço. A quarta tira lista todos os pratos das anteriores, acompanhando cada um do seu preço.

Eis o esquema: tendes o direito de escolher qualquer um dos três menus pre-concebidos, contentando-vos com a escolha da combinação entre entradas, pratos principais e sobrememsa. Não tendes o direito de prescindir ou substituir elementos, mas, desde há pouco tempo, é-vos dada a benesse de encomendar à lá carte, desde que estejais dispostos a pagar uma sobretaxa por cada prato - multa por não terdes os mesmos gostos que o Chefe Diogo.

Falo agora do nome dos pratos, porque é uma queixa comum da cozinha gourmet que produz pratos com nomes demasiado elaborados e pouco explícitos. Preparei, portanto, uma selecção sortida de nomes de pratos gourmet de outros restaurantes:

          "Brandy flamed peppercorn steak" - Convenhamos que a única dificuldade do nome aqui é saber falar inglês. Ultrapassado esse obstáculo, parece-me evidente que se trata de um bife incrustado com grãos de pimenta e flamejado com Brandy.

         "Blue cheese crusted filet Mignon with Port wine sauce" - Novamente, basta conhecer as palavras para saber que se trata de uma peça de carne cortada da ponta mais delgada do lombo com uma crosta de queijo azul e molho de vinho do Porto.

(Se vos estou a fazer fome, lembro-vos que o Chefe Rui Paula tem um excelente restaurante gourmet, na margem do rio Douro, chamado DOC).

          "Escargots à la Bourguignonne" - De acordo, este traz a dificuldade acrescida de que, se não souberdes que "Bourguignonne", neste contexto, significa grelhados em manteiga de alho e ervas, não é por sberdes falar francês que sabereis mais que que tratar-se de um prato de caracóis.

          "Telha de queijo com espargos fritos em azeite virgem" - Comi este no DOC. Uma delícia!

Segue-se agora ta listagem de todos os pratos de que me lembro da Mesa de Lemos (mais uma vez, dependo apenas da minha memória):

          O Acolhimento.
          O Tomate.
          O Coelho.
          O Atum.
          O Bacalhau.
          O Salmonete.
          O Imperador.
          O Bovino.
          O Cabrito.
          O Pudim.
          O Melão.
          Os Frutos Vermelhos.

Nesta altura do campeonato (por falar nisso, semi-finais, hem!?) já estou disposto a aturar a mania de preceder um ingrediente com um determinante artigo sintaticamente adequado, mas semanticamente desnecessário. Afinal, até o Chefe Rui Paula se lembra, ocasionalmente, de chamar a um prato "O porco bísaro feito assim e assado" (claro que não é "feito assim e assado"; o nome dá a entender o que diabo se está a pedir), mas isto é ridículo! Não fosse cada prato seguir uma designação da sua origem (que é, por vezes, tão útil como dizer-nos que o tomate - perdão, O Tomate - vem da horta e O Atum vem do mar), não saberia que O Pudim é suposto ser pudim de abade de Piriscos (deduzo, se bem que a revindicação do menu é que O Pudim vem de Piriscos, sem qualquer referência a membros do clero) e que O Melão é de Almeirim e, portanto, em princípio, não um membro de uma Boys Band portuguesa do final dos anos '90.

Nesta altura podereis querer saber que diabo vêm a ser os pratos aqui listados, mas devo advertir-vos contra colocar a mesma questão - trata-se de um tabu que, por violardes, sereis condenados a explicações lacónicas e inúteis de dúvidas que não pusestes, seguidas de redireccionamentos para outros membros da equipa do restaurante, promessas de confirmição com o Chefe e o inevitável desapontamento quando as mesmas promessas forem quebradas, resultando apenas em MAIS E MAIS ATRASOS E ESPERAS!!!

(olha a tua pressão arterial, tubarão!)

Pronto, passemos adiante. Pela minha parte, pedi O Acolhimento, O Atum (que era entrada), O Bacalhau e O Pudim. Julgo inevitável seguir com a cena hipster do Instagram de postar as fotografias do meu jantar de ontem, mas, com as minhas desculpas (não só pela prática mas também pela qualidade das fotografias - mas entandam que eu não levo máquinas fotográficas DSLR para os restaurantes e que não tiro fotografias com o telemóvel com frequência suficiente para o fazer em condições sempre), este desastre merece ser devidamente documentado.

O Acolhimento consiste em quatro pratos, servidos um de cada vez sempre e só quando um poder superior acha oportuno. E entre servir-nos cada prato e deixar-nos comer o prato em paz, o chefe dos empregados brinda-vos com uma extensíssima descrição de cada prato que, por algum motivo, não podia ter revelado ANTES de o terdes pedido, quando lho peguntastes repetidamente, enuncaindo cada iteração de forma diferente, tentando, desesperadamente, ouvir aquilo com que o homem AGORA NÃO SE CALA. O primeiro consiste num cepo de madeira, equilibrado no topo do qual repousa uma tacinha, com qualquer coisa comestível dentro:


Sirva-vos a minha mão de escala, e a minha palavra de garantia de que não há cá ilusão: não andei a escarafunhcar no Photoshop para fazer a minha mão parecer maior que o resto (eu disse "mão"), não pus a mão mais perto da lente para a fazer parecer maior e se peguei numa colher de café para comer este ovo de codorniz com ervas foi porque não me foi proposto outro talher (de outra forma, este acepipe não poderia ter durado duas colheradas).

O segundo acepipe:


Repito as minhas anteriores promessas: é esta a verdadeira grandeza do prato comparado com a minha mão.

Nesta altura foi servido o terceiro. Lamento ter-me esquecido de o fotografar - mas estava cheio de fome. Tratava-se de uma molheira com uma mistura de feijão e mexilhão, servido com uma espátula de madeira, como aquelas com que o médico nos recalca a língua para nos ver a garganta, a fingir de talher, colocada diante de mim a apontar para a esqueda, apesar de ter sido cortada na forma de uma colher. Seguidamente:


Peço desculpa de me ter esquecido de um elemento de escala, mas sabei que destes dois objectos, um era para mim e outro para a minha mãe. Ela conseguiu assentar os dentes no mesmo de maneira a fazê-lo render duas dentadas; eu não conseui a mesma proeza de exacidão...

Por quatro dentadas de comida me cobraram €10. As mesmas quatro dentadas me teriam ofereceido se tivesse pedido um menu.

No meu estado de hipoglicémia, esqueci-me igualmente de documentar O Atum. Tratava-se de um cruzamento cru entre o carpaccio e o sashimi (vedes!? Vedes que não é preciso entrar pelo gourmet para arranjar palavras invulgares para a comida!?). Melhor sashimi já comi num restaurante chinês em Viseu que se quis aventurar pelo sushi, pelo que recebeu críticas, na melhor das hipóteses, "tépidas" e muitíssimo melhor carpaccio comi uma vez numa esplanada em Amsterdão que a memória há de apagar. Mas eis O Bacalhau...


E, rezam as lendas antigas, que, se tiverdes fé num homem mágico no céu, encontrareis neste prato pudim de abade de Piriscos.


Esclareço que aquela coisa clara e vagamente capsular no meio do prato é sorvete de ananás. Sabíeis que, em Viseu, havia um tasco chamado "O Cacimbo"? Ficava perto do Liceu, e muitos professores gostavam de lá ir almoçar, porque a comida era rápida, razoável e barata. Hoje, O Cacimbo mudou de instalações e já não é uma tasca; é um restaurante despretencioso, onde o serviço é bom e a comida também, e razoavelmente preçada. Servem um pudim de abade de Piriscos com espuma de lima que, para além de meter este num chinelo, não cabe num chinelo de bebé.

 Não posso igualmente deixar de vos mostrar o prato d'Os Frutos Vermelhos que coube à minha mãe:



Se olhardes com atenção, talvez encontrareis Os Frutos Vermelhos, que eu vos juro que fotografei o prato antes de a minha mãe comer.

Sinto que devia falar da comida, e até era boa; salvo raras excepções, como a do malgorado atum ou do pudim, equanto estive a comer estive contente, mas estive lá três horas para sair dali e ir a ao frigorífico desenterrar os restos do almoço (juro-vos que não se trata de uma hipérbole ou uma fabricação cómica; se assim o escrevi, assim o fiz).

Mas o que mais me irrita é a pretensiosidade com que tudo é feito. Mesmo toques de requinte que, noutro contexto, eu teria achado engraçados (por exemplo, nunca um empregado traz uma bandeja ou mais que um prato, nem nunca um comensal é servido antes de outro na mesma mesa; vêm tantos empregados quantos comensais, cada um só com seu prato, e, se algum chegar à beira do "seu" comensal antes dos outros, espera para que todos os pratos sejam postos na mesa no mesmo instante), me pareciam falsas e irritantes. Algumas chegavam mesmo a estar mal feitas: por exemplo, os empregados usavam uma única luva branca, mas só para os talheres. Ou bem que usam luvas ou bem que não me queiram atirar areia para os olhos com requintes inconstantemente fingidos.

Se bem que merenda feita, companhia desfeita, sair dali é ainda menos fácil que lá chegar, que não há candeeiros que iluminem as ainda sinuosas curvas por entre as vinhas; apenas umas míseras luzinhas ladeiam os caminhos de quando em quando.

Chego agora ao fim da minha crítica. Quereis ainda um veredicto?

Nuke it from orbit!

Pax vobiscum atque vale.
(e bom apetite!)

2016-06-20

Geringonças victorianas

(Está visto que neste blog só um gajo é que posta, mas, ao menos, posta que se desunha...)

Pois como julgo que sabeis, agora vivo e trabalho em S. João da Madeira, mas vou muitas vezes a Viseu no fim-de-semana, a implicação óbvia do mesmo sendo que tenho muitas vezes que voltar.

Ontem preparava-me para entrar na cidade, tendo saído da N224, e esperava vez para entrar na estradita que dá acesso ao que os locais chamam a "estrada velha" e também a lugares nos arredores (como a aldeia de Cucujães, que fica aqui mencionada porque, à semelhança de Ul, acho piada ao nome) quando vejo vários automóveis à minha frente imobilizarem-se no entroncamento, parecendo aceitar ordens de um indivíduo num colete de elevada visibilidade.

Como podeis imaginar, estava a estrada temporariamente cortada (mas apenas num sentido) devido a uma prova de ciclismo. Ora eu já não estava particularmente bem disposto depois de ter sido forçado a andar às voltas em Viseu entre becos sem saída e ruas cortadas por causa das cavalhadas de Teivas* (outro nome cómico, desta vez acrescido da implicação de ser um pardiero tão mau, tão mau mas tão mau que até Viseu lhes parece melhor sítio para fazer cavalhadas. Ao menos Vildemoínhos (só nomes vencedores) tem a hombridade de só ratar ali um cantinho à saída de uma rotunda que, em todo o caso, a modos que já é "deles"), e quando me dizem que por causa dos sacanas dos ciclistas** vou ter de escolher entre ficar à espera de suas excelências numa estufa de vidro e aço (soberbamente esculpidas na forma elegante e intemporal do meu Ford Fiesta Mk VII***) à torreira do sol do meio da tarde ou passar todo o tempo que suas majestades demorarem a desimpedir a estrada (mantida por parte do dinheiro dos meus impostos em igual medida que pelos impostos deles, logo, à qual tenho, à partida, o mesmo direito) queimando gasolina futilmente para manter o ar condicionado a funcionar (porque na Ford, a economia das gamas mais modestas não obsta ao conforto dos grandes automóveis****), fiquei capaz de meter pela contra-mão e ir por ela à procura de algum Marco para deixar de Panatanas******.

Ó pá, é que já é galo! Quando não, vejamos:
 - Ainda há um punhado de semanas, vinha para casa do trabalho quando um grupo de ciclistas, que seguia:
   -> alinhado à largura da estrada;
   -> evitando a pista reservada aos ciclistas junto à berma;
   -> em contra-mão.*******
tem o desplante de se mostrar reluctante em sair da situação ilegal em que se encontra e me brinda com impropérios por querer seguir a minha marcha em situação regulamentar, conforme disposto no código das estradas, o qual é, recordo, o mesmo PARA TODOS OS UTENTES DA VIA PÚBLICA!
 - Não esquecer que o ano passado, por causa da Volta a Portugal, me obrigaram a demorar, sem exagero, 15 minutos a (juro-vos que não há aqui qualquer sombra de hipérbole) a atravessar uma rua em Viseu para ir cortar o cabelo - e ainda um badameco de um polícia municipal me queria parar quando eu seguia a pé pelo passeio.
 - E ontem isto...

Mas agora pensai cá comigo: se nos reuníssemos todos na mesma cidade, começássemos a trocar vangloriações das nossas habilidades equanto automobilistas e decidíssemos determinar experimentalmente qual de nós, em seu veículo, demoraria menos a completar certo percurso arbitrário, por acaso impediríamos algum ciclista de circular nas ruas da mesma cidade? Evidente que não! Assim que sequer tentássemos, alguém com o mais ínfimo iota de senso-comum nos teria remetido para o Autódromo do Estoril ou lugar que o valesse para disputarmos o nosso pequeno mede-pilas! Por que vernáculo do objecto a medir não hão de os ciclistas se vergar à mesma regra!?

Mas está tudo doido ou que!?

Antes de me despedir quero salientar que todas as provas do jogo "Crazy Bikers 3", disponível em breve para iOS e Android, decorrem em circuitos fechados onde nenhum utente da via foi/é/será importunado.

Pax vobiscum atque vale.

* Uma vez conheci um rapaz de Teivas. Até era bom moço, por isso custa-me dizer tanto mal de lá. Mas digo na mesma!
** Atenção que eu não tenho nada contra os ciclistas per se. Enquanto os ciclistas quiserem ser ciclistas sem estorvar ninguém, gosto muito deles todos (até me zangar com algum).
*** Não, a Ford não me paga nada para dizer bem deles (mas podia...); eu é que gosto muito do meu carro.
**** OK, pronto, admito: esta foi mesmo encomendada e paga pela Ford...*****
***** Não foi nada, mas eu ainda estou disponível!
****** Este trocadilho com o nome do ciclista Marco Pantani não resultou tão bem como na minha cabeça. Paciência...
******* Receio bem que "em contra mão" não transmita devidamente o sentimento com que as palavras devem ser tomadas. Em jeito de didascália, deixai-me deixar aqui "no caralho da contra-mão, porra! Em contra-motherfucking-mão, foda-se!"

2016-06-10

Pátria

(Já viram que dia é hoje?)

Aqui há dias fui acusado de não ser patriota e de não gostar de Portugal. Mas já respondo a isso...

Durante uns anos, a minha avó viveu numa residencial. Não era propriamente um lar de idosos, mas, na prática, era isso que fazia. Certa vez, calhava ser dia 25 de Abril, encontrou certo senhor idoso que, noutros tempos, fora simpatizante do regime fascista, ostentando uma gravata negra.

"Morreu-lhe agluém?" Perguntou a minha avó.

"Não." Respondeu, gravemente, o cavalheiro. "Estou de luto pela Pátria!"

"Pátria?" Comentou o meu pai, ouvindo a minha avó a contar a história. "Eu também tive isso quando era pequenino, mas depois passou-me."

Eu acho que "Pátria" é uma palavra um bocado perigosa. Sempre que a ouço ou a leio, vejo imagens de mártires que se sacrificaram não sei ao certo por o quê. Ao ser acusado de não ser patriota, lembrei-me de listar alguns lugares-comuns de patriotas ao longo da história de várias nações.

Havia os patriotas que se entregavam às lâminas sarracenas para empurrar para sul a fronteira do que havia de ser Portugal, mas esses eram, sobretudo, impelidos pela motivação de retomar as terras em nome do cristianismo. Ou seja, morreram por uma doutrina (que creio que a maior parte de nós considera falsa e) que nunca sequer soube os seus nomes.

Havia os patriotas Americanos, que, desafiando a vontade do Rei George, se entregavam aos mosquetes ingleses, mas esses eram, em última análise, motivados pela máxima "no taxation without representation". Ou seja, morreram por dinheiro (OK, não foi exactamente morrerem por dinheiro, mas entendeis o que quero dizer).

Houve o Imperador Pedro I do Brasil, que quis à viva força que essa colónia sul-americana deixasse de ser pertença de Portugal, mas todos sabemos que esse estava, sobretudo, a fazer birrinha porque lhe tinham tirada a coroa. Esse queria era mandar.

(Há aqui muita gente interessante pelo meio, mas vocês, se ainda não estão fartos de ler isto, hão de o ficar na mesma em breve, e escrevinhar para aqui mais coisas já só havia de servir para vos maçar.)

E agora há uns indivíduos que gritam "Allahu Akbar!" antes de rebentarem aos bocados, e que não caem exactamente ao abrigo da definição tradicional de "patriota", mas que, bem vistas as coisas, não deixam de ser fundamentalmente semelhantes.

Mas o que é que vem a ser "morrer pela pátria"? O que é, ao certo, a "Pátria"? Não me venham dizer que é o país onde se nasce, porque isso não responde à pergunta, só muda os termos da mesma. Morreríeis por qualquer talhão de terra por terdes tido a desventura de nascer lá? Valer-vos-ia a pena de vos sacrificardes pela soberania de um país constantemente em mudança de líderes, alternando os que ninguém quer e os de quem ninguém gosta? No caso das monarquias (e não digo as monarquias como o Reino Unido, em que nem o monarca nem a família real representam poder político de facto), compreendo que alguém tenha tanta fé no monarca e na sua linhagem que queira vivamente lutar por eles, mas neste regime de eterna mudança, por vezes para melhor, por vezes para pior, mas, aparentemente, nunca sequer para bem, "patriotismo" acaba por me soar ao nome de um veneno que faz os inocentes quererem perder-se por que se não perca quem lá fica a engoradar de desprezo pelos ideais que levaram à perda enganada de quem se quis sacrificar.

Dito isto, gosto de Portugal. É um país engraçado. Faltam algumas coisas (sobretudo juízo), mas a maior parte do que é indispensável já está. E tem sítios bonitos: campos verdes, serras viçosas ou nevadas, e até praias que, diz quem gosta disso, são um espectáculo (e lá nisso até os estrangeiros parecem concordar).

Agora patriota é que não sou. Não critico ninguém por ser, mas vinde-me pedir o que quer que seja "pela pátria" planeando voltar por onde viestes; se a pátria, seja isso o que for, realmente quiser algo de mim, que se mostre e venha falar comigo cara-a-cara.

Faz hoje 2 ou 3 anos, estava eu em Londres, num comboio, quando ouvi uns cavalheiros a falar português. Conforme saíram, antes de mim, aproveitei para lhes dizer "feliz dia da nossa Pátria!". Não queirais ler algum significado mais profundo nesse gesto.

Pax vobiscum aque vale.

Para todos os meus estimados colegas e amigos, sobretudo aqueles que (ainda ou já) estão no estrangeiro (outra vez), feliz dia da nossa Pátria.

2016-04-10

A brand new SCV

Porque já estou com saudades do Natal, um post mais ou menos natalício.

Creio que todos nós aqui nos recordamos de retumbante sucesso musical de Natal de 2007 (ou então de outro ano qualquer... sei lá) que parodia o tradicional cântigo em inglês "Twelve Days Of Christmas", mas com unidaded de Starcraft. Aqui há dias pus-me a pensar (nada de bom pode decorrer daqui):

"Mas afinal quantas unidades é que a Blizzard me deu ao todo?"

Se os meus estimados colegas e amigos sabem que eu sou suficientemente maluco para me pôr a fazer somas, também sabem que sou demasiado preguiçoso para fazer assim tantas. Então pesquisei um bocadinho e encontrei uma solução muito engraçada.

(Portanto, se não era imediatamente evidente, está aqui um post ligeiramente intelectual. Nada de muito. Se querem posts verdadeiramente inteligentes, falem com o Peres ou o Pedro - eles são melhores nisso que eu. Mas hoje venho fazer um post só um bocadinho inteligente.)

O número de itens recebidos cumulativamente ao fim de determinado dia pode representar-se de forma triangular. Desta forma, em cada linha representam-se, em tantos números quantos o número da linha, a soma dos objectos de determinada classe. Exemplificando:

1º Dia:

                                1                brand new SCV.

2º Dia:

                                2                brand new SCV (um do primeiro dia e outro do segundo)
                              1  1              (1 + 1 = 2*) terran Wraiths.

3º Dia:

                                3                brand new SCV
                              2  2              terran Wraiths
                            1  1  1            Marines.

Assim sendo, torna-se mais simples somar as instâncias de cada classe. Semelhantemente, torna-se fácil extrapolar o aspecto do número triangular que representa o 12º dia, com um 12 no vértice superior, dois 11s logo abaixo e assim sucessivamente até aos doze 1s na fila do fundo.

Mas podemos ainda evitar uma data de somas. Experimentemos "rodar" o número triangular do quarto dia em 60º (ou π/3 rad) em ambas as direcções, obtendo, de cada vez, um triângulo diferente e, depois, somar cada elemento com os elementos correspondentes dos outros dois triângulos (ou, se preferirem, "sobrepor" os três triângulos e somar cada número com os números com o qual coincide):

        1                      4                     1                    6
      2  1        +        3  3       +        1  2        =       6  6
    3  2  1              2  2  2              1  2  3             6  6  6
  4  3  2  1          1  1  1  1          1  2  3  4          6  6  6  6

Já viram que giro? O número triangular resultante tem o mesmo número em todas as posições! Isso simplifica-nos a vida. Resta-nos determinar a maneira mais fácil de calcular o número que prevalece na representação triangular do 12º dia (e não se esqueçam de dividir por 3 no final!).

Atentemos, portanto aos vértices. Uma vez que todas as posições terão o mesmo valor, basta-nos calcular o valor dos vértices **, o que é bastante simples: os vértices de baixo têsm sempre valor 1 e o vértice de cima tem sempre valor igual ao número de linhas (ou, no caso, dias). Logo, ao fim do 12º dia, o triângulo tem 14 em cada posição. Trata-se agora de determinar o número de posições do triângulo, sabendo que este tem 12 linhas e que cada linha tem tantas posições quanto o seu ordinal.

Todos os meus estimados colegas engenheiros e amigos têm obrigação de saber que é (n + 1) * n / 2, em que n é o número de linhas (/dias).

Portanto se conclui que a Blizzard me deu (12 + 1 + 1) * (12 + 1) * 12 / 2 / 3 = 364 unidades.

Vocês fazem ideia da quantidade de pylons que eu tive de construir?

Pax vobiscum atque vale and a bra-a-aynd new S. C. Vee!

* - Caso seja advogado, peça à sua secretária para lhe assegurar que esta conta está bem feita,
** - Atenção! Isto é má matemática, mesmo para os advogados! Idealmente, demonstrar-se-ia que a soma dos valores das posições equivalentes é constante independentemente da natureza topológica de cada posição, mas isso já é território moderadamente inteligente e hoje é Domingo.

(originalmente publicado a 10 de Abril de 2016)

EDIT: Ora hoje que já é Quinta-feira (14 de Abril), já se pode demonstrar que cada elemento do triângulo que soma os três anteriores tem o valor que tem.

Comece-se por definir uma notação: T(i, j) é a função que, a cada par ordenado (i, j) tal que i denota o número da linha e j a posição a contar da esquerda de cada elemento, faz corresponder o valor do elemento de um triângulo na posição (i, j), com j a variar entre [1; i] e i a variar entre [1; n], em que n denota o número de linhas do triângulo.

Para o primeiro triângulo, T1(i, j) = i - (j - 1), ou, para simplificar, i - j + 1. Quando não, vejamos:

T(1, 1) = 1 - 1 + 1 = 1;
T(2,1) = 2 - 1 + 1 = 2;
T(2 ,2 ) = 2 - 2 + 1 = 1;
T(3 ,1 ) = 3 - 1 + 1 = 3;
T(3 ,2 ) = 3 - 2 + 1 = 2;
T(3 , 3) = 3 - 3 + 1 = 1;
T(4 ,1 ) = 4 - 1 + 1 = 4;
T(4 , 2) = 4 - 2 + 1 = 3;
T(4 , 3) = 4 - 3 + 1 = 2;
T(4 , 4) = 4 - 4 + 1 = 1;

O segundo triângulo é mais simples, e, evidentemente, T2(i, j) = n + 1 - i. Isto deve ser evidente, uma vez que, conforme podeis constatar, cada elemento do segundo triângulo tem um valor tanto mais baixo quanto mais próximo da linha do fundo, independentemente da sua posição ao longo da linha (logo, a fórmula de T2 é independente de j).

O terceiro triângulo é igualmente simples, e T3(i, j) = j. Mais uma vez, isto é evidente, dado que cada elemento tem um valor tão mais elevado quanto a sua distância à ponta esquerda da linha a que pertence, logo, a fírmula de T3 é independente de i.

Finalmente, para o triângulo final,
T(i, j) = T1(i, j) + T2(i, j) + T3(i, j) <=>
<=> T(i, j) = i - j + 1 + n + 1 - i + j <=>
<=> T(i, j) = n + 2, o que não só é, conforme esperado, uma constante para cada triângulo, mas também equivalente à soma dos 3 vértices e, no caso do triângulo que representa a 4º dia, 6,

Q. E. D..

2016-03-07

"mas"

Há um certo elemento libertador em postar num blog "às moscas". Sinto que posso escrever o que quiser que não me vireis pedir contas. Podia fazer a afirmação mais controversa de que me lembrasse, ou mesmo inventar uma descarada e inverosímil mentira, ou, quem sabe, jurar a pés juntos que batata, excepto se parafuso parafuso parafuso parafuso pasta de dentes.

(Uma linha de intervalo)

Bem, vamos lá passar adiante, antes que venham por aí os Monty Python ordenar o mesmo.

Diz a sabedoria popular que "não há bela sem senão" nem "rosa sem espinhos", e, sinceramente, não acho que seja derrotismo aceitar o mesmo como um dado adquirido (derrotismo seria, porventura, privarmo-nos do estoicismo com o qual aceitamos o facto sem o ver, necessariamente, como uma "derrota" - aliás, o Nietzsche dizia que se deve achar essas contrapartidas "belas" e apreciá-las como às demais coisas boas da vida. O Nietzsche às vezes também era um bocado parvo... mas nem sempre).

Voltemos, portanto, ao "mas", essa belíssima conjugação que acompanha todas as alvíssaras, louvores e elogios.


"Fulana Assim-Assim é uma miúda espectacular, e quem me dera ter mais amigas como ela..."

MAS!

"... o namorado dela é um alcoólico imoral."


"Fulano Taltal tem uma perspectiva avassaladora sobre uma data de coisas, e tenho conversas extremamente estimulantes com ele..."

MAS!

"... o melhor amigo dele é um asno insuportável."


"Este emprego que comecei há menos de uma semana é impecável e paga rios de dinheiro..."

MAS!

"... o estafeta do escritório tem um hálito, na melhor das hipóteses, nauseabundo."


"A minha mãe trata-me como um príncipe e está sempre a ver quando é que eu preciso de alguma coisa..."

MAS!

"... o filho dela, para além de feio e socialmente incapaz, está a perder o cabelo."

(algumas destas situações são puramente hipotéticas).

A pergunta que vos deixo aqui hoje (deixo-a aqui para não se estragar, que não me parece que alguém cá venha mexer-lhe) é "como lidais com os "mas"?" É que, ultimamente, "paciência", que era a minha solução por omissão para estas pequenas contrapartidas da vida, parece revelar-se insuficiente.

Pax vobiscum...
MAS!
... atque vale.

2016-02-02

Feliz Ano Novo!

Se este é para ser o primeiro post de 2016, não vejo por que não começar com esta parte. Portanto, um feliz ano novo a todos os membros da Corporação Disco-Bar.

Seguidamente, já estamos em Fevereiro. Historicamente, Janeiro não existiu. Portanto, este ano só tem 11 meses. Toca a começar a aproveitá-los muito bem JÁ!!

Pax vobiscum atque vale.